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Palavra

Pedro Abrunhosa

A Palavra

Todos

Tudo o que te dou

1 de setembro de 2024

Há matérias do foro humano que nunca estarão fora de moda. A guerra é uma delas. O amor, felizmente, é outra. 'Amor de perdição', obra maior de Camilo Castelo Branco, para além do intrínseco valor literário, continua a ecoar na actualidade: um triângulo amoroso, um amor contrariado, homicídio, suicídio e os dramas pessoais expostos ao escrutínio da moral vigente. Estes ingredientes, que bastavam para notícia de abertura de um qualquer tablóide dos dias de hoje, são, afinal, um retrato ficcionado da sociedade portuguesa nos meados do século XIX e ajudaram a transformar 'Amor de perdição' num dos mais notáveis e bem sucedidos romances da literatura lusa.

É impossível destrinçar esta obra da vida pessoal de Camilo: homem de paixões arrebatadas, por vezes violento, envolveu-se romântica e fisicamente com Ana Plácido, mulher que aos 19 anos casara com um comerciante abastado do Porto. Acusados de adultério, ambos são presos e é na cadeia que Camilo escreve, em apenas 15 dias, 'Amor de perdição'. Publicada em 1862, o romance atinge imediato sucesso e acaba por reflectir a vida atribulada do autor. Na obra, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, personagens principais, envolvem se numa relação proibida; Simão mata a tiro Baltasar Coutinho, primo e prometido de Teresa, pelo que é preso e condenado ao degredo. Pouparei os detalhes seguintes para que os descubra o leitor por mão própria.

O poder transfomador da arte

31 de janeiro de 2024

O caminhar do homem é vertical. Os membros posteriores libertos, pôde a
Humanidade emancipar-se da posição rasteja quadrúpede. Servem agora as
mãos para criar: um bisonte em Chauvet com 30.000 anos, uma flauta em tíbia de
milhafre datada de há 40.000 anos [Tübbigenn, Alemanha], uma girafa com 6.000
anos talhada em pedra [norte da Nigéria] são, ao lado das Partitas de Bach, da
Guernica de Picasso ou do ‘Sétimo Selo’ de Bergman, símbolo máximo dessa
verticalidade que, mais do que apenas física, é espiritual. Quando a compreensão
já não entende e o racional é omisso ou redundante, a Arte assume-se também
em diálogo com o mistério e o indizível.
Esta elevação, este resgate do Homem ao bestial que também é, e que Pico della
Mirandola tão bem caracteriza no Discurso sobre a dignidade do homem (1486),
talvez atinja o seu zénite através do processo artístico e criativo. Tal processo
traduz, mais do que uma intervenção no plano meramente estético, um
concretizar ético da voz interior, muitas vezes polifónica, do artista. Porque existe
uma solidão ontológica do momento criador, o artista é, muitas vezes, um misfitt,
um desajustado, alguém que, em diálogo com o silêncio, é hóspede da existência
de um ‘outro’ que habita o tempo do instante criativo. Esse ‘outro’ é muitas vezes
um Deus que emerge pela mão do poeta numa quase-imagem que, contudo,
nunca se torna imanente: para lá do Belo, a Arte, mormente a Música pela sua
ontologia da imatéria, procura dizer o que transcende sem o destruir.
Talvez Steiner o tenha sabido mais eloquentemente expressar: ‘A arte, sob a sua
forma mais original, mais completa para o nosso entendimento, tem um valor de
anunciação’. (1)
O artista evoca, em jeito de anunciação, aquilo que apenas ele vê. Essa antevisão
do que o artista/criador, pressente, traz inerente um mundo que virá como
promitente espaço de paz. A Arte é sempre uma utopia, um puro acto da criação
humana, metamorfose do pensamento e da disposição interior individual do
artista, em objecto de usufruto colectivo. Em linha com esta ideia, em discurso
dirigido em 2023 a um grupo de artistas presentes em visita ao Vaticano, o Papa
Francisco afirma: “Sois um pouco como os profetas. Sabeis ver as coisas em
profundidade e à distância, como sentinelas que estreitam os olhos para
perscrutar o horizonte e sondar a realidade para além das aparências”. (2)
Talvez não seja despiciendo a esta belíssima metáfora da Arte enquanto profecia,
associar o pensamento agostiniano, mais tarde recuperado por Bernardo de
Chartres, sobre uma construção do conhecimento assente ‘sobre os ombros de
gigantes’, nanos gigantum humeris insidentes.(3) Quase o mesmo dirá, a propósito
da Ciência, Sir Isaac Newton catorze séculos depois: “Se eu vi mais longe, foi por
estar de pé sobre ombros de gigantes”. Se no domínio da progressão intelectual e
científica estas afirmações validam um concretizar humano enraizado na
capacidade visionária de alguns, para as conquistas artísticas ver o mundo ‘aos
ombros de gigantes’ faz ainda mais sentido: Homero é um profeta que anuncia
Camões, Bosch anuncia Dalí e Bob Dylan anuncia os cantautores que se lhe
seguirão. Apesar da violência da ruptura que qualquer movimentação estética, ou
científica, inevitavelmente implica, o artista anuncia um mundo que evoca uma
ética de concórdia em permanente diálogo, simultaneamente, com o património
herdado e a invenção do futuro.
Seguindo a tradição pitagórica que identifica Amor com Harmonia, Boécio, filósofo
e autor das ‘Canções de Consolação’ (4), defendera no séc.V a procura da
sabedoria e do Amor como a verdadeira fonte da felicidade humana. Tal busca,
feita sob os auspícios de uma força à qual chama Harmonia, aqui entendida no
seu sentido musical, através da qual o Amor ganha estatuto de ‘força
organizadora que regula a máquina do mundo, as coisas e os homens’. (5) Já não
se trata apenas de identificar a música como entidade meramente sonora, mas de
estender essa compreensão ao carácter mais profundo da união plena do homem
com o divino através da Harmonia, dando corpo à doutrina de Platão, mil e
duzentos anos antes, que sustenta que todo o Universo está unido pela concórdia
musical. ‘O Amor de que nos fala [Boécio] é implicitamente de carácter musical’.
(6)
A música, de entre todas as formas de Arte, talvez permita, pela sua essência não
redutível à matéria, que cada um a represente no seu mais profundo inconsciente
de maneira absolutamente única, liberta das restrições e imposições involuntárias
sempre inerentes à plasticidade das formas. Assim, num espectáculo, num
concerto, num festival de música, entender-se-á melhor que ocorra a partilha
tácita, em simultâneo, de um espaço de dentro de si próprio onde cada um ouve à
sua maneira mas que celebra irmanado com a multidão que, a maior parte das
vezes, não conhece. É desta comunhão, quase litúrgica, que a música bebe a sua
força maior, enraizada que está num processo ontológico que é, a todos os níveis,
sinónimo de reconhecimento do ‘outro', de empatia e de ideal democrático por
excelência. A Arte nunca é tirânica, não se impõe nem dita normas, e a música,
talvez por não estar constrangida pelos limites plásticos da imagem, ressoa no
emocional de cada um com a liberdade que lhe é intrínseca dando lugar a
narrativas interiores individuais que se manifestam, quando em espectáculo, numa
estranha, mas maravilhosa, sintonia colectiva. Em A Origem da Tragédia (1872),
Nietzsche interpreta esta capacidade agregadora da música como uma
manifestação de uma ancestral ligação do homem ao cosmos prévia à linguagem,
e como a palavra, no seu sentido poético, se cumpre em esforço permanente para
ascender à condição de melodia.
Logo após a segunda vaga de COVID em 2022, quando se davam os primeiros
passos para o relaxamento das medidas de confinamento por todo o mundo, foi
surpreendente ver a explosão de espectáculos a acontecer, de teatros cheios, de
museus a baterem recordes de afluência de público, numa clara evidencia da
profunda necessidade humana em mergulhar colectivamente no misterioso abraço
da Arte e como manifestação clara do quanto esta faz parte das necessidades
vitais da Humanidade. Quando no discurso político global cresce uma retórica
populista de exclusão social, de racismo, de xenofobia, de ataque aos imigrantes,
às minorias étnicas e identitárias bem como às liberdades e direitos fundamentais
dos cidadãos, retórica essa alicerçada em distorcidas práticas neoliberais de lucro
e de individualismo, faz sentido reflectir sobre o papel apaziguador, agregador e
visionário que a Arte tem sabido manter ao longo da História. (7)
Na escrita de canções, a minha área de trabalho, desde cedo senti como a
abordagem dos temas correntes do dia-a-dia, o banal, o amor e a morte, a
saudade e a conquista, pode impactar a vida de milhares de pessoas que buscam
dignidade, conforto, compaixão ou, em alguns casos, algo que as resgate à
desesperança . Ao escrever sobre a minha própria dor, por exemplo sobre a
perda, descobri que falo sobre a dor comum, sobre a dor dos muitos que, no seu
solitário silêncio abafado pela emergente pressão da produtividade, possam ter
atravessado experiências semelhantes sem terem tido a oportunidade de as
expurgar O mesmo poderia dizer quando abordo temas de exaltação e luz.
Contudo, em concerto, e em ambos os casos, dor ou euforia, assisto a uma
sincronia entre o palco e o público que escapa à racionalidade, uma quase
epifania de libertação e pertença, um uníssono que faz o caminho do individual ao
colectivo para retornar, amplificado emocionalmente, a cada um dos envolvidos.
Tal é o poder da canção. Afinal todos choramos as mesmas lágrimas e é nesse
reduto emocional que a música pode ser salvífica.
Nestes casos, a música não se deixa configurar como produto nem cai no âmbito
do ‘espectáculo’, no sentido puro de entretenimento, mas é antes um vislumbre
para a paixão e o mágico que cada indivíduo traz e é. O ritual da audição,
enquanto usufruto pleno da canção, é uma valsa interior que necessita do ‘tempo’
para se deixar ouvir, uma contemplação imersiva que se constrói em contra-ciclo
com o consumo frenético do instante e da recompensa. Na música, a
recompensa, a haver, há-de surgir numa dimensão que é apenas espiritual, que
concilia o ser mistério da existência com a concretitude do mundo que também
somos. De resto, sem esta imersão num outro tempo interior, que é tanto
cronológico quanto espiritual, não é possível a projecção para o espaço reflexivo
que a experiência exige. A identificação do leitor com qualquer personagem de,
por exemplo, Moby Dick, a comoção que tal acto acarreta, só pode ocorrer pela
permanência do primeiro numa narrativa forçosamente lenta que o arrasta para
vivencias certamente difíceis na mundanidade. O mesmo perante qualquer quadro
de Rembrandt, os filmes de Béla Tarr ou uma peça de John Coltrane.
O tempo é o espaço ontológico comum a todas as formas de Arte e é na lentidão
desse mesmo tempo que toda a experiência artística, a criativa e a do espectador/
ouvinte, assume contornos de uma transcendência possível: o encontro de quem
experiencia, de quem usufrui, com a obra em causa é um encontro do ‘eu’ fora de
si mesmo. Sem tal dimensão, que tanto pode habitar o Belo quanto a
inconformidade ou mesmo o desconforto, não existe Arte enquanto génese de
criação mas apenas um simulacro, ou espelho, do imanente. Se, no primeiro caso,
como se vê nas grutas de Lascaux ou num grafitti de Banksy, há uma vitalidade
que traz à existência, no segundo há uma repetição que nega o arrebatamento
dessa mesma existência.
Ao impor-se como um novo gesto compulsivo do humano à escala global, o scroll,
pela rapidez com que impele à próxima visualização, tornou-se no maior inimigo
da narrativa porque lhe suprime a lentidão, a imersão num tempo de dentro, a
contemplação onde o diálogo com o mistério toma foro de visão. É o regresso ao
pior da caverna de Platão: com a opção da luz tão próxima, a sociedade opta
pelas sombras. Simultaneamente, a voracidade do consumo, a sempre insatisfeita
vontade do imediato, constitui-se no maior aliado da pós-verdade porque todo o
frenesim das sombras impede a verificação. A mentira e a manipulação, nos
antípodas do encantamento, entranham-se no discurso político, no publicitário,
num interminável processo de ‘comunicação’ que enche todo o vazio sem,
contudo, o conseguir preencher. E, ocupado o vazio por outro vazio, resta à Arte a
construção de sentido pelo espanto, pela imaginação e pela criatividade
recolhendo da vida, muitas vezes do sofrimento, os ingredientes necessários para
trazer o homem ao lugar da verticalidade transformadora. Não conheço outra
vontade de todo o processo artístico que não o da pacificação: a pacificação
daquele que cria e daquele que da criação usufrui. A dimensão na qual a Arte faz
submergir o indivíduo abre-o ao espiritual e à humildade do silencio perante o que
não consegue expressar.
No último século, o neoliberalismo tornou-nos numa espécie transacional
absolutamente dependente da posse e, pior, da vaidade da posse.(8) A Arte
devolve-nos ao fundamento transformacional que merecemos ser. Na realidade,
somos apenas dependentes uns dos outros e por isso o conforto que a Arte pode
oferecer é tenazmente transversal. A falsa ideia, tantas vezes propalada pelas
ideologias tecnocráticas, de que a Arte é uma desnecessidade, resulta da
obsessão pelo resultado, pelo dinheiro e pelo sucesso. Sendo que numa
sociedade inteiramente devotada ao dinheiro, ‘sucesso’ é sempre um caminho de
iniquidade que ignora diferenças sistémicas que cada um tem, por conjunturas
diversas mas, sobretudo, sociais e económicas, no acesso à cadeia de
oportunidades. A Arte não precisa do sucesso para se cumprir e abdica dessa
obsessão neoliberal pelo ‘resultadismo’. Na realidade não vejo de que forma os
artistas que pintaram os bisontes de Chauvet há 30.000 anos possam ter pensado
em sucesso como recompensa. Ainda assim, o seu maior sucesso é a nossa
maior recompensa: a libertação dos medos e a construção de um imaginário
mágico comum é o mais simbólico, e poderoso, laço de qualquer sociedade.
É esta verticalidade que a Arte representa. E é apoiada nela que a Humanidade se
pode servir para se resgatar à ‘banalidade do mal’.
A luz dessa verticalidade que somos talvez seja, também, a Luz de Deus.
Pedro Abrunhosa


Arte e Espiritualidade - Serralves

17 de janeiro de 2024

Pensamento como pré-escrita

É no hemisfério da profunda interioridade do pensamento que primordialmente se impõe a realidade. Com ela historicidade, memória, reminiscência. O primeiro momento de percepção é ainda pré-elocutório: o objecto torna-se presente nas sensações mediante a impressão. O intuito colhe-o sem que a razão o julgue. É neste instante noético que os múltiplos conteúdos e modos sensoriais assomam a priori de forma apenas visível interiormente. Pela sua pré-existência, o objecto fala ao sujeito antes que o sujeito fale o objecto. E porque o pensamento tem na fala o seu maior instrumento, os sentidos incitam a linguagem a encontrar acesso à entidade que, ainda não falada, é apenas mistério. Pela fala entende o pensamento o que vê e diz o que entende. Mas quanto mais o fala, mais o espanto primevo, uterino, se fragmenta. Então o mistério esvanece tomado pela razão porque todo discurso é sempre limite. Poderá na Arte, mormente na Poesia, permanecer oculta a transcendência do ser falado, dado que na palavra poética a coisa é todas as coisas em si? E qual o lugar de Deus depois da banalização repetida do seu nome, depois da fala ladainha que, ao invés da Revelação, o verte?




Horror do Belo, belo do Horror

Em pleno coração da Europa de onde germinara a alta-cultura, as liberdades e o humanismo, há-de o Holocausto mostrar-se com os dentes de todo o mal.
Os mesmos que à força empurram para os já apinhados comboios da morte ainda mais vítimas, deleitam-se ao final do dia em serões com as ‘reveries’ de Debussy e chá. Entretanto, sabendo do fim que os espera e despojados de tudo que os faz homens e mulheres, aos ’untermensch’ resta apenas a memória como lugar possível da Humanidade que são. Recitam Schiller, entoam no silêncio interior cânticos em yiddish, deixam nos avessos dos catres paisagens gravadas a terra e a unhas. Não é estoicismo que os move mas viver o fim com a dignidade que nenhuma besta nazi consegue humilhar. Onde há violência e ódio há, mais do que a força dos tanques, a necessidade da supressão da identidade do outro. Memória e Arte são, por isso, os primeiros alvos do horror






A Espiritualidade Laica
De Ulisses ao Casamento por Amor


Dez anos durara a guerra em Tróia e dez anos mais há-de durar o regresso de Ulisses a casa, Ítaca. Um retorno que é, afinal, a busca de um homem pelo seu próprio lugar num universo semeado de desarmonia. Este trajecto que vai do caos à concórdia é, mais do que uma aventura, uma reflexão profunda que resgata cada homem à conformidade passiva do destino. Calypso, deusa, ninfa de múltiplos encantos e cujo nome significa ‘ocultar ou ‘encobrir’, apaixonada por Ulisses, oferece-lhe a imortalidade e juventude eterna em troca da sua permanência na ilha que habita. Ulisses negará sempre algo mais do que apenas a mortalidade que é, escolhendo viver ao lado de sua mulher e filho, Penélope e Telémaco, na perfeita consciência de que, um dia, o fim virá. ‘Conhece-te a ti mesmo’, inscrição no templo de Delfos, revela-se, em Ulisses, como o início de uma jornada que levará a humanidade a uma demanda dialogante sobre os ideais de felicidade enquanto vivência e não como esperança que só a morte revelará. Será este, desde o ínicio, o grande embate entre Filosofia e Religião. A fuga ao destino, enquanto lugar social consagrado e imutável, é definitivamente abraçada na sequência da primeira revolução industrial. Meios de produção, comunicações, novas fontes de energia farão milhões deslocar-se em busca de trabalho e melhor vida. Já não casarão pela pressão da aldeia, do pároco, da família mas por escolha própria. Penélope mora em Manchester, nas Américas, em Vizela. Onde houver pão, será Ítaca.Pedro Abrunhosa







Formas de (In)visibilidade

Arte é transcendência e imanência. Das suas formas exala a fruição apolínea, a contemplação, talvez o consolo do Belo. Para lá destas, fora dos limites físicos da sua materialidade, no processo noético anterior à substância e à palavra, lateja a incontenção dionisíaca, talvez o eco do medo primordial.
Dom humano por excelência este que vê por dentro das coisas o que elas não mostram por fora, razão e emoção dialogam num silêncio do qual há-de emergir ainda mais silêncio e, deste, um inconsciente individual, cidadela do tempo de cada um.
Assim procede também a Ciência quando longe da inibição dos métodos: a intuição do inimaginável onde os processos só veem o possível.

Dados, objetos, visões e instrumentos não chegam para chegar tão longe. É preciso mais. É preciso imaginação, ousadia e, sobretudo, rebelião. Ver não é o que se vê mas o que se pensa e não se vê.





O Erro Como Aprendizagem

Na Arte, como na Ciência, não existe um lado certo e um errado. Ambas são processos que decorrem tanto da história quanto do arrojo, do intuito, da vitalidade, do confronto com o desconhecido. Contra o saber científico de então, e apesar da ausência de instrumentos que o pudessem sustentar, Galileu percebeu que a física dos astros era igual à da Terra. Colocando em risco tanto a reputação quanto a vida, usou erros metodológicos, seus e alheios, para mudar mil e quinhentos anos de certezas geocêntricas. Hoje, a obsessão pelo sucesso, pela formatação do ensino vergado à ascensão social, castiga o erro como se este não nascesse da mão dos deuses que habitam a criatividade. O Homem erra porque tenta. E tentará sempre enquanto houver matéria que o provoque e espírito que se incendeie, pronto para a rebelião.

Pedro Abrunhosa



As mais valias absolutas

9 de janeiro de 2024

As mais valias absolutas, perenes, inegáveis que um Pais geograficamente pequeno pode oferecer a um mundo cada vez mais uniforme, são as suas diferenças, as suas idiossincrasias, a sua memória, história, sombras e anseios, palavras, mitos, poemas e terra em torno de um só conceito: cultura.
Através dela somos e sempre fomos, grandes. Porque Portugal pensa diferente e age diferente. Num planeta assético de valores, são os princípios remanescentes do mindrico, do cantochão, em rabo de peixe, do sal da terra da lezíria, que nos??, enquanto nação.

Pedro Abrunhosa


Produtos Culturais

9 de janeiro de 2024


1. Serralves é um somatório de valências: abriu as portas da Arte Contemporânea à cidade e arrancou esta às garras do provincianismo. Forma, informa e transforma quem por lá passa. Reluz de uma energia e vontades artísticas que transcendem paredes, jardins, e almas. É mais do que um local: é a visão e a força dos Homens que vão mais longe, que veem mais largo, que pensam mais alto.

2. O Teatro Nacional de S. João é, desde a sua fundação, um símbolo da resiliência cultural e de liberdade na cidade do Porto. Simultaneamente, representa todas as salas de Teatro e todo o Teatro do país. Com uma sábia gestão e uma programação notável, tornou-se um bastião de excelência, de encantamento, de ruptura.


3. Casa da Música: plataforma de cosmopolitismo. Um dia, o meu professor de Composição, Jorge Peixinho disse-me que na Música tudo era possível. Este contraponto ao imobilismo, faz da Música a Arte das Artes. Pedro Burmester sonhou a obra física que materializa a contemporaneidade do pensamento. Rem Koolhas a desenhou.

4. De Maria Teresa Horta, Escritora de quem aprendi a gostar pela pertinência da impertinência, ‘As Luzes de Leonor’, o seu último romance. Literatura ao mais alto nível, provocadora, rigorosa e escrita num refinamento que vai rareando nas livrarias. Aqui, História e estória abraçam-se numa dança em espiral que só na última página respira.


5. João Gesta é o mentor das já célebres ‘Quintas de Leitura’. Todas as primeiras quintas-feiras do mês, ao palco do Teatro do Campo Alegre sobe a melhor poesia nacional. Dita, bailada, encenada, musicada. Ao longo dos anos o país descobriu Poetas, Autores, Actores. E também que a poesia é espectáculo.

6. Augusto Brázio, nome maior da fotografia portuguesa, é um dos Autores que produziu este DR, Diário da República. Imagens em catadupa de banalidades transformadas em eterno divino. O poder da fotografia em parar o Tempo.

7. Para o futuro, o Rock português já tem nomes: Supernada, de Manuel Cruz, com ‘Nada é Possível’ e Cristina Massena com ‘O Que Não Se Vê’. Dois discos com a força telúrica da palavra como caminho. Cantautora com um talento maior que a Vida, Cristina Massena revela-se. Poderosos, os Supernada, redescobrem-nos.

8. Paulo Teixeira Pinto é o Homem mais coerente que jamais conheci. Porque a Obra define a pessoa e esta é apenas a Obra que faz. Paulo Teixeira Pinto, Pintor, Poeta, Autor, para muitos uma revelação. Para mim uma lição. Aqui, ‘Teorema XXI’, livro onde as palavras são premissas e enigma.
9. Deste soberbo Catálogo da Galeria Cordeiros poderíamos escolher qualquer peça que faríamos a escolha certa. A Galeria que sumariza o melhor da pintura contemporânea. Pela mão de Agostinho Cordeiro, há muito que este espaço se impôs como lugar de celebração e consagração.

10. O Passaporte Cultural da cidade de Vila Nova de Gaia é mais do que o acesso a todos os espaços e eventos culturais que esta cidade construiu ou mantém. É uma declaração de independência que, entre outras coisas, restitui dignidade a uma terra que também ‘houve nome Portugal’.


11. ‘Fantasia Lusitana’, filme maior de João Canijo. Um retrato documental de uma das épocas mais embaraçantes para o Estado Novo. Como conciliar a hipocrisia do regime, tão próximo da Alemanha Nazi, e a opinião pública mundial, tão empatizante com os Aliados? O ouro nazi em solo luso nunca perdeu a cor do sangue.

Pedro Abrunhosa

Aniversário Lello

5 de janeiro de 2024

A linguagem é mais complexa técnica jamais criada pela humanidade. 
Quando escrita, serve para decretar o nascimento de países, a independência de nações, os Direitos do Homem, as leis de todos os povos de todo o mundo, as narrativas teológicas pelas quais milhões são capazes de se bater até à morte. 
Nem o fogo, nem a roda, nem a fissão do átomo representam tanto histórica, cultural e socialmente como o acto universalmente necessário de representar objectos, emoções e factos por letras encadeadas em sílabas que hão-de formar palavras, frases, parágrafos, capítulos, livros que, por sua vez, nada mais são do que ideias Impressas. 
Duas sílabas juntas podem selar o destino do mundo: a-mor, gue-rra, bei-jo, bom-ba, por exemplo. Este código fonético e semântico, universal e tacitamente aceite, demorou centenas de milhares de anos a ser construído. 
Começou por ser um uivo numa gruta, um grunhido na selva, um sonoro percutir das mãos no peito para passar a ser Ciência, Religião, História, Canção, carta-de-amor ou bula de medicamento. 
Por isso, sempre que um escritor escreve, sempre que uma editora publica, o mundo fica um bocadinho mais perto do dia, mais longe da noite escura da caverna e da sombra. 
Ler é resgatar-se às trevas. É viver in facto as vidas múltiplas que, fisicamente, jamais viveremos. 
É encontrar Deus cara-a-cara e dizer-lhe: ’Gostei da Bíblia, do Alcorão e da Tora! Quando escreves o próximo?’. 
Pedro Abrunhosa

Academia de Música

22 de dezembro de 2023

Uma Escola de Música pode ser muito mais do que apenas local de aprendizagem e aperfeiçoamento técnico. Pode, e deve ser, um fórum de construção comum, um espaço privilegiado para ouvir o outro, absorvendo-o no discurso próprio. É também um olhar avançado para o meio profissional que irá, a seu tempo, solicitar aos seus alunos rigor, humanidade e, sobretudo, capacidade de transcendência artística. Nada disto se ensina. Mas tudo isto se aprende. 

É na interação com os pares ao longo do ano lectivo que os futuros músicos lidarão com as virtudes do espaço comum que a Escola permite enquanto ‘Ágora’, arena de debate e entrosamento entre todos. A Música é, por definição, a forma de arte na qual o acto solitário se converte em gregário, em colectivo, onde a interligação das partes, o todo, acrescenta mistério ao individual. 

Por isso uma Escola de Música é, também, uma porta de entrada para o exercício da democracia: a atenção à voz mais ténue do fundo da sala, integrando-a no ‘tutti’ orquestral que é o ‘Grupo’, deve ser o propósito de qualquer espaço lectivo. Um escala musical não passa de um conjunto de notas sem, significado, como um alfabeto é um conjunto de símbolos que ordenamos para um discurso articulado composto por léxico e definido por semântica. 
Sem a emoção que move o humano, uma escala nunca será nem melodia, nem poema, mas um sucedâneo de notas reproduzidas apenas pela técnica. A arte é mais do que isso. É a forma como transformamos o frio da formalidade em promessa de salvação e encantamento. 

Entre muitas outras razões, esta é uma das que me fez associar à Academia de Guitarra do Porto. Quando terminei os meus estudos no Conservatório do Porto, comecei imediatamente a dar aulas, tendo ajudado a fundar Escolas de Música. Leccionei no Porto e em Lisboa e o meu principal objectivo sempre foi o de dar primazia à criação colectiva, ao ‘Grupo’ e ao ‘Combo’, dado que esse é, em ultima análise, o grande objectivo de qualquer Músico: participar numa Banda, subir a um palco, dar a conhecer ao mundo a sua visão. E essa visão constrói-se com a interioridade próprias à qual somamos a periferia do mundo que nos cerca. 

Na Academia de Guitarra do Porto vamos poder experimentar percursos feitos de sons e de caminhos. Umas vezes esses caminhos serão estradas abertas, outras vezes apenas atalhos que vão dar a lugar nenhum. Em todo o caso, a experiência que ambos proporcionarão serão a mais eficaz das Escolas: na Música não há certezas nem verdades. Há dúvidas e mistério. Por isso, na composição, na execução em ‘Grupo’ out individual tudo nos será permitido porque os limites só existem para serem empurrados para fora de si. 

Não me restam dúvidas sobre o papel, também social, que a Academia de Guitarra do Porto irá ter sobre os mais velhos, aqueles para quem estudar um instrumento não foi, no seu tempo, opção viável. Ou sobre as crianças, porque todas as crianças são músicos em potência, tantas vezes roubadas ao seu talento pela traiçoeira absorção que as novas tecnologias exercem silenciosamente. Ouvir música é uma primeira forma de escape ao jogo, por exemplo. Mas fazê-la é ainda mais necessário: produzir um ‘Beat’, um ‘Flow’, deixar a sua marca nua batida que, quem sabe, acabará numa plataforma digital, num filme, num palco.

Coliseu do Porto

13 de outubro de 2023

Finalmente, ao fim de 82 anos sem qualquer intervenção estrutural de fundo, o Coliseu do Porto, pode ir obras! Edifício emblemático da arquitectura modernista portuguesa, sala de espectáculos ímpar emprenhada do carisma do Norte, local de peregrinação da cultura e rebeldia nacionais desde 1941, o Coliseu do Porto, apesar das dinâmicas criadas junto das populações, comunidades artísticas e promotores, nunca se viu cabal e definitivamente protegido de interesses múltiplos que, de formas mais ou menos transparentes,  tentaram fazer da sala privilégio só para alguns. Lembro-me, por exemplo, da tentativa de venda do imóvel a uma seita religiosa em 1995, ou da sempre dúbia bruma da concessão privada, agora finalmente desfeita. Em ambos os casos, ainda que distantes entre si,  largos sectores da população nortenha, e não só, poderiam vir a ser penalizados no usufruto que há mais de oitenta anos fazem livremente daquele local. Afinal esta sala foi testemunha da Oposição Democrática à ditadura do Estado Novo, viu cargas policiais à sua porta, foi escola de cidadania e de coragem mas também foi palco das primeiras celebrações e comícios livres no pós-25 de Abril. Ali se estrearam os maiores êxitos cinematográficos mundiais, ‘Ben-Hur’, ‘Música no Coração ou ‘Apocalipse Now’ e deu tecto ao som de Sviatoslav Richter, aos passos de Nureyev ou ao silêncio de Marcel Marceau. Os artistas nacionais, de Amália a Camané, de Beatriz Costa a Bispo, pisam, ou pisaram, aquele palco como extensão da sua própria casa. Uma sala assim não pode morrer na praia por falta de dinheiro para betão, caixilharias e ar condicionado.

Assim, recorrendo ao programa de Fundos Europeus, Norte 2030, a Area Metropolitana do Porto (AMP) deliberou, e muito bem, apresentar uma candidatura do Coliseu do Porto às verbas disponíveis para financiar a profunda, complexa e há muito desejada, intervenção. De facto, sob a presidência de Eduardo Vítor Rodrigues, deliberou a AMP, por unanimidade, enquanto associada da Associação Amigos do Coliseu, a comparticipação nas obras de reabilitação do Coliseu cujo orçamento de seis milhões de euros, em partes iguais, poderá ser repartido por três entidades: a própria AMP, a CMP, onde presidente, Rui Moreira, e Assembleia Municipal  parecem estar de acordo, e o Ministério da Cultura que não se pode alhear do bem-comum representado pelo peso que esta sala acrescenta à vida cultural dom país. Saliente-se ainda o notável trabalho desenvolvido pela actual direcção da Associação dos Amigos do Coliseu, à qual preside Miguel Guedes, que veio, de uma vez por todas, imprimir uma dinâmica às muitas valências do Coliseu, nomeadamente a criação de um Serviço Educativo que nunca existira até então, e a abertura e rentabilização dos muitos espaços que o edifico possui no seu âmago. Temos o melhor dos elencos, unido na defesa do bem-público e consciente do valor patrimonial e imaterial desta sala. Esta ‘peça’ pode, finalmente, subir à cena para ser vista por todos, sem exclusões. 
Cumpre-se a vontade dos eleitores quando os eleitos sabem estar à altura de quem os elegeu. Esta deliberação da AMP mostra ao país o quanto pode o poder político quando tem consciência que das suas obrigações depende a dignificação e defesa do espaço público. Em duas palavras, o bem-comum.

Pedro Abrunhosa

Jorge Sampaio

11 de outubro de 2021

Tinha 14 anos quando conheci Jorge Sampaio. Corria setembro do ano de 1975. Ele tinha acabado de fundar o MES e eu passava as férias de verão na casa de família em Moimenta da Beira. Antes do 25 de Abril de 1974 os meus Pais haviam-me habituado a conversas semi-encriptadas  das quais sempre subentendera uma clara oposição ao regime. Para uma criança, inferir que havia um ‘lado certo’ e um ‘errado’, surgia mais da natural projecção dos valores parentais do que duma inexistente consciência política. A nossa casa na rua D. João IV, bem como a dos meus avós na rua do Heroísmo, mesmo ao lado da sinistra sede da sinistra PIDE, era um discreto centro de conspiração por onde corrupiavam algumas figuras que se haveriam de destacar, após a revolução também, na implementação do regime democrático. Carlos Cal Brandão, Óscar Lopes, Virgínia Moura, Ruy Luis Gomes, Miguel Veiga, Zuzarte Cortesão, António César de Oliveira e Beatriz Oliveira, para citar alguns, faziam parte dessa prole. Destes, os últimos, António e ‘Tita’ eram, talvez, os mais próximos dos meus Pais. Nesse Setembro de 75, ambos passavam uns dias connosco em Moimenta quando Jorge Sampaio e Maria José Rita, amigos comuns, chegaram. Vinham para uma sessão de esclarecimento na Escola Secundária, previamente preparada por meu Pai e António, e que se haveria de revelar pequena para acolher a multidão e a sede que trazia.  Pouco retenho já dessa sessão para além da generosidade convicta com que se Jorge Sampaio se entregava, com igual empenho, às questões de fundo da generalidade  política e às do foro estritamente pessoal dos moimentenses. No dia seguinte, antes da partida, no ‘Zé da Moca’, uma gatinha recém nascida veio deitar-se a seus pés. Ninguém convenceria  os meus Pais a permitirem-me ficar com o bicho. Com a ternura e assertividade que lhe restara da noite anterior, Jorge Sampaio fê-lo. E porque a gatinha se aparentava com um peluche, logo ali ficou decidido o nome: ‘Peluche’ permaneceria comigo nos quatorze anos subsequentes.Duas décadas mais tarde, movido pelo mesmo profundo sentido de equidade social que lhe conhecera, Jorge Sampaio comunicou ao país a sua candidatura à Presidência da República, opondo-se não só a uma das mais medíocres personagens do então hemisfério político nacional como à nomenclatura do seu próprio partido. A violentíssima carga policial na vidreira Manuel Pereira Roldão, na Marinha Grande, à qual se seguiu uma outra, ainda mais feroz, a 31 de Agosto de 1994 na Ponte 25 de Abril, havia demonstrado que o regime do famigerado bloco central agonizava em fogo nada brando. Foi na recta final da sua campanha, em Dezembro de 1995, que nos juntámos. Havíamos decidido que só à ultima hora declararia publicamente o meu apoio fazendo valer a escassa credibilidade política que construíra junto das camadas mais jovens. Afinal, ao longo de um ano de espectáculos, tinha usado os palcos também como amplificador do protesto contra o mal-estar gerado pela gelatinosa máquina do poder vigente. O nosso encontro deu-se no Porto. Antes do anúncio, que mobilizara praticamente toda a imprensa e televisões nacionais, distribuímos os assuntos a abordar por cada um. Contudo, em pleno centro do furacão político que se fazia antever caso se verificasse a sua vitória, como veio a acontecer, naquela hora, a Jorge Sampaio interessava pouco a estratégia: - A Peluche?’, disparou. Vinte anos depois, este era o mesmo homem intrinsecamente alheio à menoridade e à intriga: Jorge Sampaio, meu, para sempre, Presidente. 
Pedro Abrunhosa 

Cultura On-line

31 de março de 2021

Consumo cultural on-line na fronteira de duas eras
Crise, palavra de origem grega que significa “juízo” como ‘decisão final sobre um
processo e (…) decisão de um acontecer num sentido ou no outro’(1) é, assim, e
por definição, o momento de confronto entre um estado de ‘normalidade’ e um
outro, limítrofe deste e fronteira dum próximo, gerado por factor externo não
previsto, não contemplado, por uma patogenia que pode ser, por exemplo, social,
política ou estética e que, no caso que hoje nos importa, é sanitária. De todas as
crises emerge fatalmente um universo diferente do anterior que há-de assimilar a
patogenia no seu seio, normalizando-a. Porém, esse novo universo permanecerá
numa tentação de retorno ao antigo ‘normal’, tal é o avesso humano ao novo, por
justaposição à simpatia do hábito. A ‘Rotina Tem O Seu Encanto’, filme de 1962
de Yasujiro Ozu, cineasta japonês que filmou exaustivamente a banal vida de
famílias subitamente sacudidas por uma crise, poderia epitomizar este sentimento.
De facto, a Humanidade é impelida para o conforto do que já conhece, da
constância, das rotinas, porque nelas o inconsciente estabeleceu relações de
segurança mesmo que muitas vezes apenas aparentes. Ainda que a deusa
Calypso lhe tenha oferecido a imortalidade e a juventude eterna a troco do
esquecimento, para Ulisses, Ítaca, Penélope e Telémaco, âmago do seu domus,
representarão sempre o regresso ao regresso, o retorno ao lugar primevo de
pertença, um percurso que, do caos da guerra, há-de desaguar na paz do que lhe
é familiar. Ulisses recusa os avanços da deusa, não sem antes ter destes
desfrutado o bastante. A crise pode ser isso também: uma gestão do
desconhecido até o ter absorvido ou rejeitado mas sempre dela retirando,
colectiva ou individualmente, o melhor. Contudo, o novo universo surgido deste
‘caos’ confrontacional não será nunca mais o que já foi. Afinal, todas as crises
resultam em cisão e todas as cisões arrastam o fim de um tempo velho e o
princípio de uma nova ordem. Não é de estranhar então que nos alicercemos na realidade que conhecíamos até
Dezembro de 2019, antes das primeiras noticias sobre um estranho vírus no
mercado de Huan, para projectarmos o futuro que desejamos. Aspiracionalmente,
para uns, todo o seu mundo voltará ao que já foi, enquanto que, para outros, as
mudanças serão fonte radical de reflexão e vitalidade. A verdade é que não
sabemos o que virá ao certo para todas as áreas uma vez cumpridos os desígnios
da vacina na globalidade da população. Certamente em muito sectores não
haverá mudanças profundas enquanto noutros as mudanças que advirão no pós-
pandemia, e que já se faziam anunciar muito antes desta ter surgido, marcarão
uma nova era na relação entre as realidades produtivas e de consumo.
Parece-me que a presente crise de saúde marca o fim de uma era, o fim da
modernidade, e que viemos um momento de fronteira nos paradigmas
civilizacionais que é, em simultâneo, vórtice do que poderíamos chamar de ‘nova
revolução industrial’. De facto, a História mostrou-nos que em todas as
revoluções industrias há um ponto de não retorno fortemente vincado pela
ruptura entre três variantes: novas fontes de energia, nova mobilidade e novos
modelos de difusão da informação. Se ao actual momento de pânico sanitário
somarmos soma o novo paradigma digital, temos todos os ingredientes que
esboçarão os valores que marcarão a pós-modernidade. Os paradigmas do
progressismo moderno parecem ter sido esmagados pela sua própria saturação: o
hiper-consumo, o materialismo, o economicismo, o trans-humanismo, a crença no
prolongamento ad-aeternum da vida e o individualismo são já sinais bastantes de
uma crise de civilização, de uma decadência de conceitos acelerada pelo embate
com o real: como Ulysses, percebemos o nosso lugar na finitude - afinal
morremos. Acabaram os loucos anos 90. O século XXI pode, finalmente, começar.
A patogenia que veio sacudir as nossas rotinas e bem-estar, por ter caráter
pandémico, ou seja, por se ter espalhado de forma vertiginosamente rápida e
sem precedentes por todo o mundo, é a característica essencial desta mudança
forçada e imprevista mas cujo fantasma se construía já silenciosamente mesmo
antes do surgimento do vírus do Sars-CoV2. Apesar de ser de génese sanitária, a
presente crise tem como reagente o medo, o que explica a aparente facilidade com que se conseguiu confinar país atrás de país, sobretudo nas democracias
ocidentais tão avessas a restrições de ordem individual e que toleraram, umas
melhor do que outras, estados de emergência sucessivos. É a partir deste ponto
que o vírus se torna paradigma e testemunha de uma mudança de época
epitomizada pela transição da modernidade para a pós-modernidade. Catalisada
pelo fim do mito do progresso ao qual se soma a ideologia do ‘eu’, a decadência
da modernidade tão fomentada pelo novo cartesianismo económico de fim de
século tornou-se inevitável, sobretudo quando as elites constataram que já
nenhum bastião se podia opor à aproximação do vírus às suas muralhas.
Verdadeiramente democrata, o Sars-Cov2, por não se tratar de mais uma
longínqua ‘epidemia dos pobres’, faz soar os alarmes de todos os pressupostos
até então apenas pressentidos nas altas-esferas: ‘O que é característico dessa
crise é uma espécie de pânico das elites, a desesperança dos cientistas com as
terapias existentes, a incapacidade de agir racionalmente, de detectar, tratar,
colocar as pessoas atingidas em quarentena e, finalmente, usar uma medida
inédita em escala mundial, ou mesmo em um país inteiro: o confinamento é a
desestruturação de todo um sistema social’. (2)
Más notícias para os novos-astrólogos, os pseudo-cientistas da economia, que
foram incapazes de inserir qualquer elemento patogénico não numeral nos seus
modelos, isto apesar dos alertas urgentes lançados ao longo, pelo menos, dos
últimos dez anos pela OMS, pela ONU e por renomados epidemiologistas em todo
o mundo. As suas previsões redutoramente economicistas, deixarão de ser a base
da ação política que deve governar a vida social. Essa base de acção terá a partir
de hoje de contar muito mais com a saúde em pano de fundo, não como espectro
mas como noção de ‘natureza’ da qual apenas somos parte. As agressões ao
planeta terão que tomar em conta esta fragilidade revelada e, no âmbito das
acções políticas desta nova ordem da pós-modernidade, venha ela a ter o nome
que tiver, terá que ser contemplado um notável esforço político global no plano
ecológico sendo que a não-acção trará ainda mais depressa, mais violenta e
incontrolável a próxima pandemia. Será pois forçoso aprender a viver em colectivo este fim de modernidade imposto pelo estertor do mito do progresso.. Afinal, ‘o
fim de um mundo não é o fim do mundo’. (3)
No sector da Cultura esta pandemia ficará marcada por ter afectado
pesadamente, e pela primeira vez na História, a cadeia de valor na sua total
amplitude. A mero título exemplificativo do quão fundo esta crise penetrou no
espectro cultural, nunca antes na história do entretenimento e do espectáculo a
indústria norte-americana tinha parado de forma tão abrupta.
De facto, nas prévias crises contemporâneas de carácter histórico, político ou
económico [I e II Guerras Mundiais, 11 de Setembro, crise de 2008] os públicos
mantiveram-se funcionais, ainda que com dificuldades, o que veio a permitir ao
sector cultural manter a relação entre hábitos de criação e consumo conseguindo,
a custo, sustentar os mercados da Arte, do espectáculo, do cinema, os museus
ou as edições livreiras.
Pelo contrário, a presente crise, pela sua característica de ameaça sanitária
verdadeiramente global, está a ter impactos arrasadores em todo os vectores da
área, muitos em paragem absoluta desde o início da pandemia. O reflexo disto ao
mais elementar nível da sustentabilidade e dignidade individual pode ser
constatado, por exemplo, na forma como foram afectadas as receitas do cineasta
consagrado, idêntica à causada ao trapezista de circo itinerante, ao autor laureado
ou ao mais invisível assistente de sala. Por muito que custe às elites culturais, e
muito para lá da discussão filosófica, antropológica e política do que possa ser a
noção Cultura que ocuparia todo um outro artigo, o que une todo um sector que
produz simultaneamente Arte e entretenimento é, sobretudo, apesar dos meios de
comunicação digital, a impossibilidade de encontro dos diferentes criadores com
os seus públicos, muitas vezes comuns. Como escrevi em Março de 2019 numa
comunicação a que chamei ‘A solidão dos que geram multidões’(4), os que antes
eram pagos para agregar multidões foram os primeiros a quem foi pedido, por
razões óbvias, que o deixassem de fazer, o que arrastou todo o sector do
espectáculo para uma crise artística e humanitária da qual não há memória e, pior,
não há recomeço à vista nos moldes que, até aqui, eram prática diária. Ao mesmo
tempo que a calamidade invadia toda uma comunidade criativa e técnica, ressoava estrondosamente a realidade sobre a forma displicente como todos os
governos do pós 25 de Abril, e na senda do desprezo ao qual o regime
monárquico e o Estado Novo votaram o sector, encararam o papel e o valor da
Cultura no palco da política nacional, não como uma mais valia intrínseca criadora
de riqueza mas como um ‘bolo-de-noiva’ vistoso posto em cima da mesa em dia
de festa: come-se de dedinho espetado mas tem por função encher o olho aos
convivas já saciados do bácoro.
Uma vez revelados ineficazes e insuficientes praticamente todos os apoios
apresentados aos profissionais do sector cultural, e no seguimento dos novos
paradigmas que se afirmam após qualquer crise, tem agora o Estado português a
soberana oportunidade de fazer mea-culpa, rastreando e elencando com exaustão
e precisão milimétricas as verdadeiras dimensões e funcionalidades do que é
vulgarmente designado como ‘trabalhador da Cultura’. Se não for por mais nada,
já esta pandemia terá contribuído para uma verdadeira clarificação de algo para o
qual sucessivos governos tem sido alertados: a necessidade da aprovação de um
estatuto do trabalhador da Cultura, do estatuto do Autor, conversão para o
território nacional da directiva comunitária sobre direito digital e uma urgente e
musculada intervenção, articulada com os parceiros europeus, que altere as
regras fiscais e remuneratórias das plataformas digitais.
Esta impreparação do Ministério da Cultura português para entender a verdadeira
amplitude do que, supostamente, deve representar foi, para mim, reveladora da
distância a que o poder central está da ‘estrada’. A área da música, a que mais me
é familiar, tem passado por constantes transformações de ordem tecnológica, o
que, nos últimos anos, afectou de forma irreversível, nem sempre para pior, todo
um sector que sempre foi altamente competitivo, rentável, empregador e,
sobretudo, auto-sustentável. Esta autodeterminação económica da música
permitiu-lhe ter, face aos poderes, uma independência que áreas como o cinema
ou o teatro, porventura menos afirmados no terreno, não tem. Os processos
criativos que cada uma destras áreas enfrenta são muitas vezes diametralmente
opostos entre si e o seu impacto directo na economia é também diverso. Talvez
por isso, por raras vezes terem tido necessidade de bater à porta do Ministério da Cultura, os trabalhadores da área da música, bem como todos os trabalhadores
independentes a esta associados, encontraram gigantescas dificuldades nos
acessos aos fundos disponibilizados pelo MC e ME uma vez que, em muitos
casos, o sistema nem sequer reconhece a sua existência. Isto vem demostrar que
as reivindicações dos músicos em tempo de pré-crise foram virtualmente
inexistentes provocando uma certa invisibilidade do sector aos olhos do poder.
Apesar disso, o cataclismo COVID bateu de igual forma à porta de todos tendo,
em muitos casos, lançado famílias inteiras para a indigência. Um Estado de Direito
que não sabe atentar a estes cidadãos de forma digna e transparente não merece
dos trabalhadores da Cultura a forma como, ao contrário, tem dedicado
abnegadamente o seu talento à elevação do país.
Entretanto, os gigantes da área de promoção de eventos, cujo poder negocial com
agências e empresas de representação artística deixa pouco lugar a concorrentes
de menor dimensão, começaram já a sufocar os promotores independentes,
muitos com extremas dificuldade para manter as suas estruturas, por mais
pequenas sejam. Essa tendência de concentração afecta não apenas os
pequenos festivais mas alastra-se para os grandes. A Live Nation adquiriu em
2018 a participação majoritária do Rock in Rio que, em 2017, teve a maior
bilheteria na América do Sul - cerca de 700 mil espectadores - e a
segunda maior no mundo. Ora, esta tendência concentracionista deve
vir a encontrar cada vez menos barreiras num mercado que já tinha
pouca liquidez e que, enquanto vingar a pandemia, tende retrair-se
ainda mais.
Por outro lado, os artistas, músicos, intérpretes e equipas técnicas sem
patrocínios ou contratos com marcas, encontraram nos lives um paliativo para a
impossibilidade de realizar eventos presenciais, o que veio expor um problema
antigo, ampliado agora em plena crise: a remuneração de todos os profissionais
envolvidos nas transmissões de carácter eminentemente gratuitas para o
consumidor final. Numa altura em que cresce de forma descontrolada o apetite
pelos conteúdos online, a monetização de tais produtos criativos é crucial, assunto que é, ainda, um ponto crítico do sistema. Com efeito, as plataformas
digitais que triangulam os vértices Artista-Anunciante-Consumidor, atraem o
vértice 2., o Anunciante, com o conteúdo do vértice 1., o Artista, o que por sua vez
faz acorrer o vértice 3, o Consumidor. Remunerando o Artista com menos de
0,5‰ das receitas geradas pelas cobranças ao Anunciante e os dados ‘raptados’
ao Consumidor, os conglomerados digitais transformaram-se em verdadeiras
máquinas predatórias do circuito artístico.
Antes usados como ferramentas de comunicação e marketing, as redes sociais,
como Instagram, Facebook e Twitter, e outros canais digitais, como YouTube
tornaram-se subitamente suportes para a programação e os únicos meios
possíveis de interação entre instituições e o público. Os GAFA, Google, Apple,
FaceBook e Amazon, concentram em si mais de 95‰ do mercado e na Europa
passam impunes por entre a peneira fiscal, não retribuindo, nem contribuindo, de
nenhuma maneira para o sistema fiscal dos países onde actuam. Deveria ser
objectivo da UE tributar os lucros dos GAFA em 3‰,, como Espanha está já a
propor fazer, incidindo de forma regulamentada e segmentada a distribuição das
taxas cobradas proporcionalmente por cada um dos territórios onde se
impuseram como cartel. Só assim a Europa poderá realmente fazer frente à
hegemonia cultural norte-americano e emergir como potência capaz de gerir a sua
própria identidade cultural. Ressalve-se em Portugal o caso de sucesso da FILMIN
que tem vindo a fazer frente, ainda que de forma titubeante no início, ao gigante
NETFLIX e que, pelo menos em Portugal, começa já, com muito superior
qualidade, a impor-se.
Na música, a carência de acordos atualizados entre plataformas e entidades de
gestão e colecta de direitos autorais fez com que o repertório transmitido nos lives
não tenha sido corretamente identificado e reportado. Assim, a remuneração de
tais conteúdos, quando identificados, dilui-se entre as outras arrecadações
dessas plataformas sendo necessários acordos globais novos e atualizados que
se adquem às mudanças impostas pela pandemia. As entidades gestoras e de
direitos, em Portugal a SPA, GDA e Audiogest, afirmam que já se estão a
movimentar nesse sentido. Os novos modelos de negócio para as transmissões on-line ao vivo, via Zoom ou afins, irão certamente permanecer como formato no
pós-pandemia e é de saudar as novas plataformas, como a CliveOn em Portugal,
que fazem já esta mediação e exploram formas de remuneração, tratando da
bilhética, dos direitos autorais e conexos, promovendo e marketizando, facilitando
o acesso às performances on-line. Estes novos ‘servidores’ estão já a actuar não
só no mercado da música mas também no das conferências, no meio académico
e empresarial visando acabar com o paradigma de não remunerar os interventores
em tais actividades. Também neste campo a pandemia, ao expor fragilidades,
acelerou soluções.
A pandemia veio ainda revelar que o on-line é catalisador do acesso a bens
culturais, democratizando-os, como por exemplo tem sido notório na forma como
inúmeros museus tem conseguido divulgar, com muito sucesso, colecções que
antes se mantinham nos bastidores. Nos espectáculos presenciais, nos
de música como nos de teatro, as transmissões integrais pelas
plataformas tem permitido difundir em tempo real, através de compra
de bilhete digital, o que antes só podia ser visto por quem está no
recinto. Não creio que esta prática desapareça uma vez debelada a
pandemia mas, apesar desta facilidade ter ficado clara, nada
substituirá a emoção presencial tão cara à espécie humana. A
imposição de um paradigma híbrido que complemente o físico com o
on-line é benéfica, desde que respeitados os direitos de artistas,
produtores e técnicos bem como os direitos dos consumidores.
O futuro não é sombrio. É apenas diferente do passado. E, em muitos
casos, ainda bem.
Pedro Abrunhosa

(1) Enciclopédia ‘Logos’, entrada de Alexandre Fradique Morujão, Verbo, Lisboa-S.Paulo, 1983, Vol I, p. 1229 .

(2) Michel Maffesoli, in ‘Tendências de uma nova sociedade’, publicado por Observatório ITAÙ Cultural, ed.28, …………p.21 a 27.

(3) idem.

(4) in Jornal ‘Público’….

Como o SNS salva o governo [E não o contrário, como deveria ser]

28 de fevereiro de 2021

Durante um ano esta pandemia provocou já em todo o mundo dois milhões e meio de mortos. Como referência, e para memória futura: 510.000 nos Estados Unidos, 252.000 no Brasil, 122.000 no Reino Unido e 16.300 em Portugal. Em apenas um ano, estes avassaladores números normalizaram-se no íntimo colectivo que, em desesperado acto de instintiva sobrevivência emocional, se apressou a transformar a dor e o luto de dois milhões e meio de famílias em frios indicadores estatísticos. Para os Gregos da Antiguidade, o pior dos medos era a possibilidade da perda da memória e, consequentemente, da identidade. Os mortos realmente não morriam: apenas desapareciam do meio dos vivos para descer ao Hades e aí, sem rosto, sem nome ou voz, permanecerem eternidade fora desprovidos de qualquer tipo de personalidade terrena. Os dois milhões e meio de mortos que esta pandemia já levou circulam também silenciosamente entre nós, agora friamente travestidos de estatísticas, taxas e rácios. Nesta sua crua marcha final, cada um destes cidadãos sem rosto é capaz ainda de fornecer aos vivos muita da informação necessária para que estes ajuízem da eficácia dos seus próprios governos no combate ao vírus Sars-Cov2. 

Sem espanto, e como aqui escrevi como provável há precisamente um ano, a primeira liderança a ruir estrondosamente às mãos destes trágicos indicadores foi a Administração Trump que desde o início menosprezou a vaga pandémica como se esta fosse sucumbir pelo ‘acaso’, depois ‘pelo calor’, pela ‘lixívia’ e , finalmente, pela natural imunização de grupo. A natureza, com a força implacável do vírus, encarregou-se do desmentido. Trump, e apesar dos indicadores económicos não lhe serem totalmente desfavoráveis, pode ter errado em muitas frentes, mas foi esta que lhe custou a reeleição. 
Em Portugal, e apesar dos elevados valores de mortalidade não divergirem muito dos norte-americanos e serem até um pouco mais elevados que estes últimos, 1.603* contra  1.579* por milhão de habitantes, e de acordo com as últimas sondagens da Aximage  divulgadas a 29 de Fevereiro, o PS ganharia de novo folgadamente as eleições com 37,6% das intenções de voto e uma vantagem clara de 11% para o segundo classificado, o PSD. Não sendo este artigo de análise política, não deixa de ser surpreendente que o Partido que governa o país há dois mandatos consecutivos e que enfrenta o massivo desgaste diário que o combate à pandemia inerentemente traz a qualquer liderança, se mantenha de pedra e cal como provável vencedor das próximas legislativas. 

A meu ver, apesar dos muitos erros cometidos (mas quem os não cometeria perante o desconhecido?), das mensagens contraditórias, dos confinamentos contestados ora por excesso, ora por defeito, e, sobretudo, apesar das lancinantes políticas de cativações malabaristas que tem impedido um financiamento a sério ao Sistema Nacional de Saúde, é precisamente pela eficácia reconhecida por todos ao SNS, mesmo perante a proximidade do colapso verificado em Janeiro último, que o partido no governo consegue manter-se ainda com valores tão elevados nas intenções de voto. 
Ao contrário do caso norte-americano onde abundam meios mas falta abrangência, o Sistema Nacional de Saúde cobre 100% da população em todo o território e em todas as áreas da saúde. Não é pequena esta conquista que, com toda a legitimidade, se reconhece ao que de melhor trouxe o 25 de Abril. Pelo contrário, nos Estados Unidos, o plano de saúde do Presidente Obama, o ‘Obamacare’, que visa exactamente suprir as populações de cuidados de saúde públicos permanentes, mormente aos mais pobres, às minorias, aos que vivem nas mais remotas localidades, foi o alvo mais visado da administração Trump que nunca conseguiu apresentar alternativa credível senão a assumida privatização da saúde através dos seguros. Traduzindo: quem tem dinheiro compra cuidados. Quem não tem, tivesse. Atendendo à política de isenção de impostos e benefícios fiscais para as grandes empresas imediatamente posta em prática por Trump, não admira que se queira também um sistema de saúde menor, absolutamente privado, tal como muitos ainda almejam para Portugal. 

Vista como negócio num país onde a população envelhece a olhos vistos, que tratamento teria sido dado, por exemplo, aos idosos, muitos com reformas que mal pagam o pão e o tecto, se forçados a adquirir um ‘seguro’ que pouco os seguraria? A resposta está nas entrelinhas: o SNS é, também, um esteio no campo social que extravasa muito para lá das competências meramente formais da área estrita da saúde.  Parece-me elementar concluir que a Saúde, ao lado da Justiça, da Educação e da Cultura, quer-se essencialmente como bem público e que é isso que, na sua maioria, as populações desejam e, em última análise, a defesa de tal paradigma será o que sustentará a proposta ganhadora nas próximas eleições. 

Uma última palavra para o sector privado da saúde em Portugal que, sobretudo nos últimos meses, conjuntamente com a rede de farmácias e de laboratórios, se coordenou com o sector estatal para fazer frente ao vírus numa 'coexistência concorrencial' que muito digna a tradição humanista europeia de acudir aos seus pares. Acredito num mercado regulado na área da saúde onde todos caibam e que todos possam pagar, donde ninguém fique excluído por falta de recursos, género, credo ou raça. Contudo, creio que desta pandemia sai um SNS reforçado na percepção que os portugueses hoje dele tem. O exacto oposto do que a propaganda de descrédito tentou incutir continuadamente no inconsciente colectivo nacional.

Pedro Abrunhosa


*Dados do Worldometer : https://www.worldometers.info/

O medo 

11 de outubro de 2020

Tinha treze anos quando fui sozinho viajar pela Europa. Uma mochila, trezentos escudos no bolso ( talvez o equivalente a trezentos euros hoje), muita sede de mundo e bastante ‘lata’. Durante um mês atirei-me para universos que não conhecia  e situações que não dominava. Muito fora da minha zona de conforto, esta aventura acabaria por ser determinante para um maior entendimento de mim  próprio: um homem revela-se verdadeiramente perante o abismo, a tragédia, a contrariedade. Não quando está no conforto do expectável, na comodidade consoladora da rotina caseira. Afinal, é na forma como ultrapassamos o que não controlamos, como encaramos e lidamos com o que não conhecemos, que melhor nos definimos. 

Descobri nessa altura que não sendo nem melhor, nem pior do que as gentes que ia encontrando, eu era, afinal, igual aos ingleses,  aos dinamarqueses, aos japoneses, aos italianos e nenhum deles era melhor do que eu a ser eu próprio. Entendo agora que aos treze anos, tendo-me atirado para o desconhecido, estava a resolver precocemente o complexo de auto-menorização que, muitas vezes enquanto povo, nos faz endeusar o ‘estrangeiro’ e sucumbir perante ele. O mito, como o medo, desfaz-se quando o confrontamos. O mito, pelas razões históricas e difusas que carrega, revela-se frágil e a sua ‘desmitificação’ acontece no decorrer da nossa vivência no seu seio.  Em muitos casos, sobretudo na mitificação antecipada de situações que julgamos virem a ser penosas, descobrimos que as nossas crenças eram alicerçadas no que nos tinha sido transmitido pela tradição, pelo olhar de terceiros, não passando isso afinal de uma série de erros acumulados que pouco tem a ver com a nossa própria experiência e leitura pessoal  das mesmas circunstâncias. 

O medo, por outro lado, é um sentimento espoletado pelos estímulos da vida. Aprender a dominá-lo e, sobretudo, a entendê-lo, tem estado na origem duma das maiores demandas evolutivas da Humanidade. Perante o perigo, o Homem desenvolveu ao longo de milhares de anos mecanismos de alerta rápidos que, pela própria definição de intuição, o protegeram de situações adversas perante as quais o racional não teria tido espaço para se manifestar. Na savana de há 60.000 anos, por exemplo, escapar à boca de um leão resultava mais do intuito gerado pela envolvente (odores, sons, sensação de exposição) do que pela análise factícia dos vestígios ou dos relatos de outras tribos. Do somatório  de ambas estas circunstancias, intuição e razão, desenvolveríamos a inteligência emocional de que hoje nos orgulhamos enquanto espécie. 

Ter medo, perceber o medo, transformou a Humanidade  na espécie dominante que hoje é. Ao contrário dos outros animais, o Homem aprendeu a racionalizar o medo e circunscreveu-o a limites que não podem afectar o desenvolvimento da acção. É que, apesar de necessário, o medo pode paralisar a capacidade da reação, tornando-se num problema do quotidiano se extrapolar os limites e começar a atingir a qualidade de vida. A partir do momento em que o medo impede o indivíduo de fazer coisas comuns do dia-a-dia, estamos perante o medo patológico ou ‘fobia’. 

Ao ser o maior inibidor da acção, o medo, transfigura-se por antecipação em ansiedade e, pela fobia, em, pânico. Como todas as virtudes morais, ‘no centro está a virtude’. Nem destemeridade nem sentimento fóbico. Apenas ‘coragem’ perante o medo e este como sentimento que aguça o estado de vigilância diante do perigo e incita a agir para a resolução deste.

Vivemos na sociedade do medo. Temos medo de tudo: do sexo, do álcool, do tabaco, da carne de vaca, do açúcar, dos antibióticos, da nanotecnologia, da mundialização, do islão, do buraco do ozono, do aquecimento global, da internet, de andar de avião e agora até de sair de casa. Somos tiranizados pelo medo e, se observarmos a história da Europa dos últimos quarenta anos, não é simplesmente apenas essa proliferação de medos que vivemos, mas também a desculpabilzação do medo. O medo serve, em última análise, como desculpa para a inacção individual e, por consequência, colectiva. O homem é tendencialmente preguiçoso e egoísta e o medo a escusa ideal que usa perante si próprio para não agir. A fuga, a recusa em enfrentar os seus próprios receios, toma muitas vezes o lugar que deveria ser o da acção. 

Como exemplo: se pensarmos na fobia de pequenos ratos, de caranguejos, de algas no fundo do mar, sejamos claros: foram muito poucos os que até hoje morreram por ataque de caranguejos ou por uma rebelião de algas. Contudo não são raras as situações em que, perante uma aranha na casa de banho o indivíduo tudo faça para escapar a tão feroz animal. Na tentativa de fuga de uma situação que nos provoca pânico, é o medo que faz de cada um de nós o estúpido e o egoísta que trazemos dentro, felizmente a maior parte das vezes adormecido e silencioso, mas capaz de atropelar tudo e todos apenas para se salvar. Neste sentido, saber que o Aquecimento Global é um problema real, uma equação que ameaça o futuro de cada um com consequências já visíveis e não agir de forma consequente e concertada, revela uma geração que se recusa a enfrentar o medo e a passar de imediato à acção . 

Para a Filosofia, o medo é considerado como o maior inimigo da razão e o Sábio é aquele que o consegue vencer. O medo torna o homem pouco inteligentes e insensível perante os outros. Se, como diz Saint-Éxupery, crescer é perder o medo do escuro, enfrentar o mundo, ser mesmo capaz de ir em socorro de um desconhecido em dificuldades, então vencer alguns medos será ultrapassar-se da condição infantil, o que nos tornará não só em pessoas grandes mas em Grandes Pessoas. 

Permitam-me recordar aqui uma curta passagem da Bíblia, uma parábola descrita tanto por S.Marcos como por S. Lucas: a Parábola dos Talentos

Um homem ao sair de viagem chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. Ao primeiro deu cinco talentos a outro dois, e ao terceiro um. A cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida partiu de viagem. 
O que havia recebido cinco talentos saiu imediatamente, aplicou-os, e ganhou mais cinco. 
Também o que tinha dois talentos ganhou mais dois. 
Mas o que tinha recebido um talento cavou um buraco no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Depois de muito tempo o senhor voltou e acertou contas com eles. 
O que tinha recebido cinco talentos trouxe outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco talentos; veja, eu ganhei mais cinco’.
O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, eu te porei sobre o muito’.
Veio também o que tinha recebido dois talentos e disse: ‘O senhor me confiou dois talentos; veja, eu ganhei mais dois’.
O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, eu te porei sobre o muito.’
Por fim veio o que tinha recebido um talento e disse: ‘Eu sabia que o senhor é um homem severo, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou. Por isso, tive medo, saí e escondi o seu talento no chão. Veja, aqui está o que lhe pertence’.
“O senhor respondeu: ‘Servo mau e negligente! Sabias que eu colho onde não plantei e junto onde não semeei? Então devias ter confiado o meu dinheiro aos banqueiros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com juros.
‘Tirem o talento dele e entreguem-no ao que tem dez. Pois a quem tem, mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado. E lancem fora o servo inútil, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes’.

Pode a resolução do senhor ser dura por castigar o mais fraco dos servos, mas esta parábola não é só o enobrecimento do trabalho no seio de uma sociedade aristocrata que o considerava menor, mas também a condenação do medo e da preguiça como factores que paralisam o homem perante aa circunstâncias e o impedem de agir. O servo é castigado não por ter produzido pouco mas por nada ter feito com o pouco que lhe foi dado: por medo enterrou a moeda que lhe havia sido confiada, por medo paralisou, por medo se manteve pobre. Desta parábola emerge talvez a mais importante ilação da moral humanista cristã: ninguém vale pelo que tem mas pelo que faz com o que tem.

Neste duríssimo tempo que vivemos, abrangidos pelo mais democrático dos flagelos, uma pandemia, somos confrontados com um novo medo: não só o de nos infectarmos mas o de podermos contaminar os que amamos. É-nos pedido que nos afastemos socialmente uns dos outros, o que é meridianamente oposto à nossa essência humana de proximidade. Contudo sabemos que, como todos os desastres naturais (tempestades, terramotos, ciclones) também esta pandemia tem fim anunciado. A forma como cada um a vive contribuirá determinantemente para que mantenha a qualidade de vida possível.  Apesar de todas as agruras que ainda passaremos, vencer este desastre natural ainda está ao alcance da ação individual. Ao contrário de um terramoto ou de um furacão, ainda podemos contribuir para o destino do colectivo. O futuro é já hoje e baixar os braços não é uma opção. 

Sei dos muitos que me escutam hoje e que, com legítimo receio, se mantiveram no seu posto de trabalho em contacto constante com o público, assim mantendo o país a funcionar, a produzir, a manifestar-se vivo perante o medo. Conheço bem a questão, o receio do contágio, a presença de terceiros à nossa volta, dependentes de nós, conheço bem o desfecho do nosso trabalho e do nosso desempenho. À expectativa  que o público tem de nós, somamos a espera da nossa família que, em casa, nos aguarda e receia pela nossa saúde. É nestes raros momentos da História que podemos orgulhar-nos de termos contribuído para a solução, para que o colectivo venha a colher da dignidade da nossa ação. 

Ao contrário do servo na Parábola, não paralisámos nem abrimos um buraco no chão para esconder os nossos talentos. Como escreveu Shakespeare na peça ‘Henrique V’, quando nas vésperas da batalha de Azincourt no dia de S. Crispim, se dirige aos seus soldados francamente em minoria perante o exército adversário: 

‘Nós poucos, nós os poucos felizes, nós grupo de irmãos; 
Aquele que hoje derramar o seu sangue comigo 
Deve ser meu irmão, mas nunca tão vil, 
Este dia deve gentilizar a sua condição.
E os homens gentis da Inglaterra agora na cama 
Devem achar-se malditos por não estarem aqui
E segurar as suas virilidades baratas enquanto alguém fala 
Que lutou connosco no dia de São Crispim’

Afinal Montaigne tinha razão: ‘A única coisa da qual devemos ter medo é do próprio medo’

Pedro Abrunhosa
Porto, 11.10.20

Com que ousadia

6 de julho de 2020

Afirmou D. Tolentino de Mendonça, nas celebrações do 10 de Junho do corrente
ano, que ‘Camões desconfinou Portugal’. Se é verdade o papel do poeta na
abertura do país ao mundo, o mesmo fez Amália que, de uma assentada,
desconfinou Camões da estatuária do Estado Novo e o Fado da letalidade
endogâmica da tradição.
Contudo, há um arquitecto por detrás desta ousadia da fadista: Alain Oulman.
Nascido em 1928 perto de Lisboa no seio de uma familia da burguesia judaica,
Alain Oulman cresceu num ambiente dado aos negócios, à literatura e à música.
Aos vinte cinco anos, chamado a assumir a gestão das empresas familiares, tinha
já desenvolvido uma relação próxima com o meio musical lisboeta, do bas-fond
ao erudito, que não abandonaria nunca. Pianista, autor e compositor, passa dois
anos em Nova Iorque onde se funde no ambiente jazzístico da cidade. Aqui, à
excepção do cosmopolitismo e do ambiente de liberdade, reconhece as muitas
afinidades entre Fado e Jazz: músicas urbanas saídas de um ventre em agonia,
ambas emergem, vulcânicas, dengosas ou lancinantes, por entre o fumo dos
bares e das vozes de calaceiros. Contudo, e apesar de ter evoluído da
circularidade repetitiva dos três acordes do Blues, o Jazz havia já captado a
atenção das grandes escolas artísticas e conquistado um lugar ao lado da mais
complexa música erudita.
De resto, esta simplicidade na harmonia sequencial comum ao Blues e ao Fado
poderá ter espoletado a vontade em Oulman para experimentações que
extravasassem este último para longe dos canones tradicionais onde estacionara
sem contudo lhe vergar a genuinidade ou abastardar com tiques maneiristas.
Quarenta anos antes do conceito de ‘world-music’ que viria nos anos 90 a tornar
globais algumas expressões de música local e regional, Alain Oulman desenvolvia
conceitos estéticos e técnicos que romperiam com o estatuto do Fado enquanto
forma musical cristalizada em normas sacrossantas, muitas vezes apenas
implícitas.
O facto de ter crescido, não perto mas dentro do Fado, permitiu-lhe uma visão
interior e humilde mas ao mesmo tempo externa e destemida abrindo-lhe caminho
para utilizar elementos estranhos ao universo fadista de então, tanto na abordagem musical como na literária. Atento à pluralidade de questões que
levantaria ao iniciar um processo de composição numa área tão ‘policiada’ pela
tradição, Oulman, sem qualquer complexo, lançava a semente da polémica que
havia de ser também a génese do profundo abalo que havia de transformar os
axiomas fadísticos, encarados como intocáveis, numa forma mais permeável à
mundividência. Tal revolução iria entreabrir as portas de um desconfinamento vital
que ainda hoje se mantém.
Num ambiente tão avesso a mudanças e tão duplamente conservador, o do país e
o do Fado, só alicerçado na firmeza de um intérprete consagrado, ousado e
ambicioso, que aceitasse arriscar para lá do formato do castiço e da tradição,
poderia Alain Oulman colher das suas composições a dignidade que estas, de
facto, tinham.
Amália Rodrigues era isso tudo. Fadista reconhecida dentro e fora do país, Amália
estava provavelmente ciente de que para alcançar circuitos artísticos mais
desafiantes, mantendo o mercado global que já conquistara, precisava de
repertório que espelhasse a inventividade poética que agora reconhecia nos seus
pares fora de portas, de Piaf a Callas.
Foi em Paris, nos camarins do Olympia, provavelmente em 1959 (a fadista aí
actuou de 22 Janeiro a 16 Fevereiro) que Alain Oulman e Amália se terão
encontrado pela primeira vez. Ali, antes do espectáculo, aquele homem que
Amália não conhecia mas recebeu, interpretou ao piano a melodia do que viria a
ser ‘Vagamundo’, fado que seria editado em 1962 no primeiro disco de ambos,
‘Busto’. Nas palavras do próprio: ‘Toquei-a, apressado, ali mesmo, num piano que
estava nas bastidores e o certo é que a música lhe agradou e ela me sugeriu que
procurasse, em Paris, Luís de Macedo, para o poema…’ (1).
‘Busto’, com seis fados de Oulman, seria apenas o início de uma cumplicidade
criativa entre ambos que atingiria em ‘Com que voz’, gravado em 1969 mas
editado apenas em 1970, o seu zénite. Com doze composições originais de Alain
Oulman, o máximo que um LP à altura poderia comportar, ‘Com que voz’ sumariza
uma convergência ímpar entre intérprete e autor, ambos donos de uma profunda
maturidade humana e artística que se revelaria essencial para o embate que iriam
enfrentar. De facto, se já em ’Busto’ Amália havia cantado David Mourão-Ferreira e
Pedro Homem de Mello, é por influência de Oulman que empresta a voz a poetas contemporâneos como Cecília Meireles, Alexandre O’Neill, Ary dos Santos ou
Manuel Alegre. Contudo é com o soneto de Luís de Camões que dá nome ao
disco, ‘Com que voz’, que a polémica estala. Com honrosas excepções, como por
exemplo Augusto de Castro ou o catedrático da FLUL, Hernâni Cidade, crítica,
academia e meio fadista sucedem-se em condenações à ousadia da
interpretação. Tirar o maior poeta da língua lusa ao casulo dos ‘gramáticos’ era
um insulto em várias frentes: ao simbolismo petrificado com o qual o regime exibia
Camões, ao ambiente empoeirado dos contadores de sílabas na academia e nos
salões, aos puristas do Fado que viam entrar porta dentro uma construção métrica
e lexical que poria em causa a santíssima trindade tradicional — o fado corrido, o
mouraria e o menor— .
A esse propósito, mesmo vozes progressistas como a de José Cardoso Pires ou
do poeta José Gomes Ferreira, cuja obra magnífica, não comprometida com o
Estado Novo, faria adivinhar melhor atitude, juntaram-se ao libelo acusatório. Já
para Augusto de Castro, à altura director do Diário de Notícias, e para quem
Amália devolvera Camões ao seu povo, esta composição marca o regresso do
poeta ao seu lugar ontológico: ‘(…) porque foi povo, embarcadiço e poeta.
[Camões] Amou as noitadas, aquele jeito de desferir voos de asas no azul que a
guitarra da garganta de Amália espalha à sua volta quando canta’. (2)
Mas se há uma introdução da poesia contemporânea no Fado pela mão de
Oulman, bem como a composição sobre autores, até então, intocáveis, avalizados
por Amália, há, no plano musical, uma ruptura talvez ainda maior porque encerra
linguagem, para muitos, hermética. Com efeito, é no plano harmónico e estrutural
que Alain Oulman mais afronta os paladinos do purismo. Se até então o Fado
tradicional consistia em cantar letras diversas sobre harmonias comuns, quer no
Mouraria, no Corridinho e no Menor, as composições de Oulman introduzem
inicialmente variações sobre esta estrutura fixa acrescentando aos acordes
algumas extensões invulgares até aí, pelo menos de forma racional, tal como as
nonas, as sétimas, as quintas e quartas-aumentadas e todo um sem número de
sequências harmónicas que iam beber à tríade jazzística muita da sua surpresa.
Nesse aspecto, ‘Com que voz’ é um Fado absolutamente paradigmático para o
que virá depois. Acordes maiores que, subitamente, se transformam em menores,
extensões internas dentro do mesmo acorde e no mesmo compasso conferindo- lhes cor, drama e ambivalência tonal, cadências imprevisíveis que em tudo
contrariam a harmonia expectável do Fado tradicional maioritariamente baseada
na tónica, no quarto grau e, por vezes, no quinto. Tudo isto, somado ao belíssimo
soneto camoniano, torna 'Com que voz' no ‘Tristão e Isolda’ do Fado, ópera de
Wagner de 1865 em cuja abertura, com um acorde que ainda hoje suscita
discussão, se anuncia o dodecafonismo, o serialismo integral, o atonalismo e o
cromatismo, este último responsável por grande parte produção da música erudita
do séc. XX e XXI.
Numa perspectiva meramente estética, Alain Oulman acaba por representar para
Amália o papel que o Produtor Musical tem nas indústria discográfica a partir da
década de 60, ainda que não apareça creditado nos discos como tal. O Produtor
Musical é, ainda nos dias de hoje, alguém que se debruça sobre o processo
criativo e artístico bem como tudo o que envolve a gravação de um disco por
forma a potenciar apenas as qualidades estéticas deste. Se o resultado comercial
estiver em linha com a ambição artística, tanto melhor. O Produtor é, na música,
aquilo que podemos chamar de Director Artístico. Ele define caminhos, decide que
temas se gravam, que autores se interpretam e, sobretudo, que arranjos terá cada
canção e qual o lugar de cada uma no alinhamento final do disco. Importantíssimo
para a renovação do repertório do intérprete, com impacto directo sobre o olhar
que público e crítica lhe lançarão, o Produtor é, no estúdio, o gestor da carreira do
artista naquele preciso momento, Todas a suas decisões terão impacto no
julgamento a que, sobretudo intérpretes consagrados como Amália, estarão
sujeitos perante os seus seguidores e o mercado. Nesse aspecto, Alain Oulman é
muito mais do que ‘apenas’ o autor que escreve para Amália músicas que são,
elas mesmas, fracturantes, como se isso por si só não representasse já suficiente
responsabilidade. Ele é o homem que em 1969 vê em Amália muito mais do que
qualquer outra pessoa. Talvez nisso só acompanhado pela fé de Amália nele
mesmo, o que confere à fadista ainda maior valor. Raros são os intérpretes que se
abandonam assim às mãos dos seus autores e dos seus produtores. Amália está,
nesse capítulo, ao lado dos Beatles que se entregam a George Martin ou de Dylan
que, mais tarde, deixará Daniel Lanois aos comandos do seu magnifico disco ‘Oh
Mercy’, ponto de viragem incontornável da carreira do futuro Nobel da Literatura. As portas que Oulman e Amália abriram em ‘Com que voz’, ainda hoje deixam
entrar luz. Foi essa abertura, muito à frente para o seu tempo, que permitiu a
muitos dos actuais fadistas singrar nos mesmos mercados de Amália, cantando
hoje a novíssima poesia portuguesa e, apesar do respeito devido à tradição e à
escola por esta criada, interpretar fados com o arrojo aprendido em ‘Com que
voz’. Ana Moura, Mariza, Camané, Carminho, são, entre muitos outros,
descendentes directos deste disco, dos seus poetas, do seu autor e da sua
intérprete. Será esse talvez o maior legado de Alain Oulman e Amália Rodrigues.
Pedro Abrunhosa

(1)Alain Oulman (1928-1990), entrevista publicada: A Capital, Fevereiro 1971. Citada em : As mãos que trago : Alain Oulman 1928-1990, Portugal, EGEAC, 2009, ISBN 978-989-8167-05-7, p. 36

(2) Augusto de Castro in Editorial do Diário de Notícias, Lisboa, citado por António Valdemar, ‘A Voz de Camões’, Revista do Expresso, Ed. 2486, 20, Junho, 2020, p. 39

A solidão dos que juntam multidões

11 de abril de 2020

O impacto do Covid-19 na área do espectáculo é devastador. Sendo que a função primária de todos os que estão ligados a esta indústria é aglomerar multidões, encher recintos grandes e pequenos, festas, feiras, teatros, festivais, convenções, eventos de toda a ordem, adivinha-se uma tragédia surda a abater-se sobre dezenas de milhares de profissionais e suas famílias. Se não forem tomadas de imediato medidas que protejam aqueles que, nos bastidores, levam à cena a
nobreza da cultura, agregam o país, o encantam e iluminam, o impacto humano sobre esta miríade de trabalhadores invisíveis, muitas vezes a recibos verdes e sem qualquer tipo de retaguarda financeira, será tremendo. Há já muita angústia. Não tardará a fome e o desespero.
E a questão explica-se sumariamente: todas as actividades ligadas directamente ao espectáculo e cuja subsistência se alicerça em exclusivo, repito, na capacidade de aglutinar multidões, tiveram uma paragem de facturação de 100%. Mais: uma vez retomada a normalidade das actividades económicas que, espera-se seja em breve, a percepção colectiva do risco não levará de imediato o público a regressar a uma sala de teatro ou a um festival. O jugo psicológico manter-se-á muito para além de ultrapassada a primeira e segunda vaga do Covid-19. Nem a restauração ou a hotelaria, apesar do profundíssimo impacto que sofreram e com tanto em comum com estoutro sector, terá tal ordem de perdas. Para quem trabalha nas indústrias de palco, artístico ou de entretenimento, o cenário é o pior possível: todos os espectáculos sem excepção foram cancelados ou adiados e não há, compreensivamente, qualquer contratação a acontecer até ao início de 2021 sendo que, por esta altura, já o calendário do próximo ano deveria contar com bastante actividade. Desde que no início de Março estalou a pandemia, a facturação é nula e as marcações para os próximos dez meses, talvez mais, inexistentes.
Quando parto em digressão, e dependendo da dimensão do espectáculo em causa, a minha equipa pode ser composta, entre músicos e técnicos, por quinze a vinte e cinco membros. É exclusivamente em nome deles, pela abnegação incansável com que abraçam a profissão que tem, pela sua humildade e dedicação, porque representam outros tantos milhares neste momento em genuína agonia, pela incerteza lançada sobre as suas famílias, pela incógnita de como irão pagar as contas básicas à sua subsistência, que solicito ao Governo o olhar humano que lhe tenho reconhecido para sectores igualmente desprotegidos.
Já flagelados pelo fim das vendas de discos em formato físico, pela exploração de publicidade nas plataformas digitais cujas receitas para os autores são insignificantes, pelo uso abusivo e gratuito dos conteúdos que conjuntamente criam, músicos e técnicos veem-se agora a braços com a obrigatoriedade da inacção total, crise que se adivinha ainda mais trágica que a de 2008.
Não me lembro de ver a área da Música reclamar fosse o que fosse do Estado apesar de ser esta a primeira a marcar presença, individual ou colectiva, em milhares de eventos solidários: da simples compra de uma ambulância aos incêndios em Pedrogão, nunca faltou prontidão à classe. Ou por orgulho, ou para não sobrecarregar uma já hiper-solicitada máquina estatal, ou porque sempre foi
uma classe absolutamente autónoma, os músicos sabem que nesta sua auto-suficiência assenta a liberdade criativa que os conecta com os seus públicos. Nada dita mais a independência artística do que a distância para com o Poder. Mas esta é a hora de, em nome das equipas que lidero e que hoje aqui me outorgo representar, exigir que o Governo tome medidas eficazes e a longo prazo que acudam de forma inequívoca àqueles que enfrentam já seríssimas dificuldades.
As comitivas necessárias para levar à cena qualquer espectáculo são factores dinâmicos de criação de riqueza. Elas integram Músicos, Actores, Bailarinos, Técnicos de som, luz e vídeo, Roadies, Encenadores, Directores de palco, Maquinistas, Motoristas, Produtores, Promotores, entre dezenas de outros profissionais que hoje, e sem fim à vista, tem as suas vidas adiadas. Para os cofres do Estado contribuem directa e indirectamente com a vastidão das mais valias fiscais e laborais decorrentes da economia real que espoletam: empresas de de som e luz, de palcos, tendas, bancadas, bilhética, restauração, hotelaria, agências de viagens, de transportes, rent-a-car, de catering, de design, marketing, branding, imprensa, equipas de produção, comunicação, de contabilidade, agências de artistas, saneamento, vedação, construção, fornecedores de camarins,
geradores, instalações sanitárias encontram-se entre algumas das actividades que o sector do espectáculo estimula.
Em 2018 realizaram-se 311 festivais de música que mobilizaram 3 milhões de espectadores aos quais se podem somar milhares de eventos em praças, festas populares, terreiros, bailes e celebrações que, além de tudo, servem para que o país nunca mergulhe na penumbra amarga da tristeza. Os nossos clientes são este imenso público que vive no país mas também o que anda pelo país, os que correm atrás dos seus artistas e usam as ofertas locais, os que provam a sua gastronomia e se alojam em hotéis, casas de turismo de habitação, de turismo rural, os que usam
os parques de campismo e circulam pelas nossas estradas dinamizando pujantemente a economia regional e nacional. São dezenas de milhares os postos de trabalho que esta indústria gera. Mas não é possível contabilizar o valor do serviço prestado à comunidade, ao país, à sua imagem, à sua auto-estima.
Nada disto seria possível sem a imensa massa anónima para a qual venho hoje requerer atenção.
Não são autores que se possam agora fazer ressarcir dos seus direitos, nem micro-empresários que possam recorrer às linhas de crédito disponibilizadas, nem produtores de conteúdos que possam agora disponibilizar e monetizar. São operários do sector, invisíveis e silenciosos mas fundamentais para que músicos como eu possam ter a visibilidade que fomos adquirindo. Sem eles, os nossos espectáculos seria uma negridão em cima de uma caixa de cartão. Eles fazem com
que eu seja ouvido. Está na hora de usar o que me construíram para que sejam eles também escutados.
Pedro Abrunhosa

A Sociedade Existe - Durante a Crise COVID -2020

22 de março de 2020

Acredito que vivemos um momento histórico que poderá, na era pós-pandemia,
abrigar uma nova forma de olharmos para o contrato social.
A velocidade dos acontecimentos e o seu impacto directo no quotidiano,
associado à tomada de consciência colectiva das verdadeiras funções do
Estado, poderá levar a um reequilibrar de forças no plano das acções políticas
de forma global. A aproximação das eleições norte-americanas e francesas,
cujo resultado em muito depende da eficácia das medidas tomadas no combate
ao vírus, podem lançar pistas sobre o que aí vem: ou a pandemia populista ou
a solidariedade e a justiça.
A política não é um acto abstracto. A pandemia que enfrentamos hoje veio
demonstrar o quão eficiente é a nossa cidadania na construção do bem comum
e o quanto a ‘polis’ e a democracia dependem disso. Pela contagiabilidade
feroz do coronavírus, sofremos mais pelo impacto que receamos nos outros do
que em nós próprios. Se algo define a Humanidade, a separa da bestialidade
de outras espécies, é este receio pelos demais, pelos que nos são próximos
mas também pelos que não conhecemos: amamos à distância, mesmo quem
não vemos, amamos outras espécies, defendemos os mais fracos, protegemos
quem não pode cuidar de si. Mas o Amor traz uma sombra: o sofrimento.
Séneca, dramaturgo e filósofo romano, advogava que a virtude era suficiente
para a felicidade e que os ‘verdadeiros sábios eram imunes ao sofrimento’.
Esta corrente de pensamento, estoicismo, veio a encontrar eco nalgumas
religiões orientais de carácter monacal: ‘desprendido, sem família, só, retirado,
encontrarei a minha luz apesar do que aconteça no mundo’. Pessoalmente,
não creio que pudesse encontrar virtude, felicidade ou luz em pleno sofrimento
colectivo. E pela mais simples das razões: o colectivo não me é alheio.
Portanto, de estóico não tenho nada. Sendo nós o Estado, uma das nossas
funções enquanto tal é proteger aqueles a quem individualmente não
conseguimos chegar. Indivíduo e sociedade são parceiros nesta demanda. A
isto se chama ‘Política’.
A actual pandemia veio pôr a nu a esquecida fragilidade humana. Na sua
natural democraticidade, o coronavírus não distingue abastados ou
desprotegidos e galga continentes com o desprezo inerente à natureza. Como
para uma praga de insectos ou uma revoada de andorinhas as fronteiras são-
lhe indiferentes. A matéria na qual homens assentam os seus credos, deuses,
limites, territórios, muros ou ideologias são cuspidos pelo vírus com o mesmo
desdém com que estes se haviam cuspido e guerreado entre si. A
desimportância de ser Homem emerge: afinal morremos. Por momentos iguais
no medo e no destino, todos olhamos para a Ciência na ânsia de uma resposta
à altura. Entretanto não temos outra forma de sobreviver senão o regresso à
caverna e esperar que passe o tropel de mamutes. Fechados em casa olhamos
finalmente para dentro apenas para constatar como estávamos distantes de
nós próprios, dos nossos, do essencial. O Mistério e o Profundo são-nos
alheios. Se Deus existe ele não está nem nos bibelots nem nas redes sociais.
O consumo minou-nos a espiritualidade, levou-nos a imaginação e o tempo.
Sobretudo o tempo porque a espiritualidade é-nos imanente e transcendente,
sobretudo sem Deus. À distância, sentimo-nos turistas de uma vida que já não
reconhecemos e que não sabemos quando voltará. Para os que tocam
instrumentos, escrevem, leem, pintam, criam, há ainda uma salvação. Para os
outros a salvação é começar a fazê-lo de imediato, ganhar tempo ao tempo
que se perdeu. Rodeados de objectos que não poderemos comer, plásticos,
algodões, bugigangas, entre Fé e cientismo, cada qual escolhe de onde virá o
Bem salvífico e cada qual se acalentará na fogueira que acender.
No degredo forçado da caverna, as fakenews são a palha que há-de rastilhar
incêndios incontroláveis: a turba descerá à rua ávida de sangue e açambarcará
papel higiénico na ausência deste. Nunca, desde o final da segunda-guerra, a
mediação dos jornalistas foi tão necessária: verificar os factos, confrontar
testemunhos, estar no terreno. É a guerra. Séneca estava errado: sozinhos,
ainda que para proteger os que amamos, jamais seremos felizes.
Em sintonia com o vírus os discursos do medo cavalgam o apocalipse. Está
sempre no ‘outro’ a culpa da miséria a que chegámos e há sempre um
‘salvador’ agarrado a uma bandeira e a sentenças às quais ignorância e
desinformação aderem com fervor. A ‘apatia das massas’, como lhe chamou
Lipovetsky, há-de acordar para um ódio que não conhecia e para uma fúria que
lhe expurgue medos e males. Frascos de alcool de 0,40 cl vendidos a 150€ não
faltarão. Nem avalanches de mensagens para extorquir ‘fundos’ para uma
‘vacina’. De tudo é o homem capaz. Mas também do seu inverso.
Desta pandemia há-de ficar para sempre a firme imagem de um Serviço
Nacional de Saúde que nunca hesitou, que se entrincheirou na linha da frente e
que, apesar da exaustão, da sobre-lotação, do sub-equipamento só há-de
largar a luta quando a vencer. É sobretudo aos hospitais públicos que acorrem
os cidadãos em momentos de desamparo como este. Apesar de não terem
recepções coloridas, de as esperas serem longas e as condições longe das
desejáveis, sabem os cidadãos que em lado algum terão melhor apoio, mais
abnegado, mais humano e genuíno. Da peste sempre fugiram os seguros e os
privados mas quando vier a cura hão-de multiplicar-se em folhetos de papel
couché a dourar a pílula para a qual pouco contribuíram.
Há no liberalismo pré-pandémico uma tendência para justificar os actos
baseando-se meramente nos resultados financeiros deles decorrentes. Já a
prevenção e o combate continuado, quando não rentável, tornam-se
descartáveis e uma carga que cai exclusivamente sobre o serviço público. O
coronavírus torna claríssimo que o investimento na investigação, na literacia
científica e na formação especializada é uma prioridade e não um ‘desperdício
de recursos’ como demagogicamente tanto alardearam os liberais pré-
pandémicos. Talvez nada epitomize mais o espírito que levou as gentes à rua
a 25 de Abril de 1974 do que a efectiva edificação do Sistema Nacional de
Saúde porque, paralelamente à construção de uma rede de escolas públicas, o
SNS impôs-se no terreno, sem protelações, sem paliativos nem meias-
medidas. Porque é um bem do qual ninguém abdica, a saúde é das matérias
politicamente mais ideológicas e, simultaneamente, das mais rentáveis e das
mais onerosas. O permanente denegrir dos serviços públicos na mitologia
urbana, na conversa de café, na maledicência é, por isso, uma das mais
infames formas de convenientemente consagrar quem quer o seu fim.
Ao contrário do que afirmou Margaret Thatcher nos idos de 80, ’A sociedade
não existe’, defendendo o indivíduo como unidade autónoma e separada,
negando-lhe a ontologia gregária e social que é, justificando assim a parca
intervenção do Estado, descobrimos com este vírus que somos muito mais do
que os indivíduos isolados Thatcherianos e que estamos umbilicalmente
ligados à sociedade que, afinal, existe mesmo. Agora fisicamente isolados,
delegamos ao Estado as competências que muitas vezes lhe negámos: estar
magnanimamente presente no nosso quotidiano. Ao Estado pedimos que
elabore as normas de combate ao vírus, que as faça executar no terreno, que
treine médicos, enfermeiros, que faça o transporte de doentes, que lidere
planos de acção na linha da frente, nos hospitais, nos centros de saúde, onde
quer que o vírus possa ser debelado. A tudo isto dizemos que sim, mesmo que
tal possa por momentos desconcertar algumas das nossas mais básicas
liberdades e garantias. Tal é o poder da confiança que depositamos afinal no
Estado. Mesmo aqueles que ontem defendiam menos Estado são os primeiros
a implorar que este os assista agora. Afinal a sacrossanta ‘regulação’ é isto: ao
Estado a missão de suportar o peso total da crise. E é num Estado destes que
quero viver.

Pedro Abrunhosa

Já Não Há Para Onde Fugir

23 de julho de 2010

‘Se quiser, tiro-lhe esta mosquitada do vidro!’. O homem que proferira esta frase naquela tarde abrasadora de Setembro já havia enchido o depósito do meu carro e verificado a pressão dos pneus. Tudo com uma ligeireza que dificilmente se poderia atribuir a alguém na casa dos sessenta. A pele tisnada e um corpo vigoroso eram apenas desmentidos por um olhar fundo e meigo. Daqueles olhares de quem viu Mundos e voltou para contar. Disse-lhe que sim, que me fizesse o favor de dar uma limpadela no pára-brisas. Seria um pretexto para lhe dar algo mais quando pagasse sem que se sentisse humilhado. A nobreza da alma vê-se por fora, e os seus gestos eram pragmáticos e lestos de alguém habituado aos trabalhos duros que a vida vai impondo. Perguntei-lhe se era dali, daquele remoto lugar no Alentejo, sabendo eu que fosse qual fosse a resposta, o que é relevante num percurso não é o local de nascença mas onde se foi encostando o corpo ao longo do caminho. ‘Sim’, respondeu,’ mas fugi para Lisboa porque desde os 5 anos aqui verguei na lida desta terra que devolve pouco e exige tanto’. A tatuagem fundida no braço esquerdo, e que poderia ser uma serpente ou uma frase já ilegível, pareceu contrair-se. Sem ter ido sequer à escola porque a não havia, tinha escapado aos 12 aos rigores do chão alentejano e ao afecto paterno, se este tivesse existido. Deambulara pela capital onde conseguira trabalho numa adega ali para os lados de Santa Apolónia. Aí conheceu prostitutas, perdidos, bêbedos e viajantes sem destino e origem duvidosa. Tornou-se um deles quando se juntou a uma trupe de circo que parara para se refrescar em tinto da pipa. Fugira uma vez mais. Foi aprendiz, malabarista, acrobata, ajudante de cena, cavaleiro, mimo, mágico, porteiro, vendedor de pipocas e, finalmente, a profissão que lhe ficaria colada na pele melhor do qualquer uma das muitas tatuagens, Palhaço. Correra o país e até a Espanha tinha ido. E quando fazia de Palhaço rico usava o sotaque daquele país para sublinhar piadas às quais a miudagem retribuía num alarido que lhe alimentava o corpo e o sonho. Palhaço foi toda a vida, mesmo quando na Guiné evitava premir o gatilho da sua G-3 no receio de matar o inimigo oculto. Embora soldado, soldado nunca foi. E de lá fugiu, pouco antes do 25 de Abril, que o havia de indultar da pesada carga da deserção, para ir viver no Senegal. ‘Nenhum Palhaço pode odiar’, repetia para justificar mais esta fuga. E em Dakar fez uma vez mais de tudo para que a fraqueza o não levasse. Embarcadiço num pequeno veleiro, transportava café, cabras e contrabando entre as pequenas ilhas vizinhas. Numa delas teve finalmente a oportunidade de regressar a Portugal. O barco ‘Amor de Mãe’ andava na pesca do atum e voltaria a casa nesse mês. Embarcou e foi pescador, marinheiro e estivador. Na década de oitenta, já o país não era o mesmo, e nem as suas tiradas de Palhaço rico num espanhol de fronteira, surtiam efeito junto de plateias que agora preferiam a nudez das trapezistas. Agora limitava-se a levantar e a recolher a tenda, espetar ferros e esticar cordas dando-lhes nós que aprendera no mar. Voltou à arena, mas para limpar o recinto dos dejectos de cavalos magros e tigres adormecidos. Sem mais que fazer, decidira tornar a casa. Chegou à sua vila de noite e adormeceu à porta da que tinha sido a sua casa. O posto de gasolina estava em construção e foi com o barulho da azáfama que despertou. E aí arranjou trabalho.
Agora que acabou de limpar o último mosquito com minúcia de artesão, acabou também de me contar a sua história. ‘Aqui estou vai para 20 anos, saiba o senhor’. E antes que eu cometesse a imprudência de dar gorjeta a este Palhaço que só buscava dignidade, olhou em redor, abriu os braços queimados e exibiu uma vez mais tatuagens indistintas. Apontou a imensidão em volta e atirou: ‘ Já não há para onde fugir’.

Pedro Abrunhosa

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