A linguagem é mais complexa técnica jamais criada pela humanidade.
Quando escrita, serve para decretar o nascimento de países, a independência de nações, os Direitos do Homem, as leis de todos os povos de todo o mundo, as narrativas teológicas pelas quais milhões são capazes de se bater até à morte.
Nem o fogo, nem a roda, nem a fissão do átomo representam tanto histórica, cultural e socialmente como o acto universalmente necessário de representar objectos, emoções e factos por letras encadeadas em sílabas que hão-de formar palavras, frases, parágrafos, capítulos, livros que, por sua vez, nada mais são do que ideias Impressas.
Duas sílabas juntas podem selar o destino do mundo: a-mor, gue-rra, bei-jo, bom-ba, por exemplo. Este código fonético e semântico, universal e tacitamente aceite, demorou centenas de milhares de anos a ser construído.
Começou por ser um uivo numa gruta, um grunhido na selva, um sonoro percutir das mãos no peito para passar a ser Ciência, Religião, História, Canção, carta-de-amor ou bula de medicamento.
Por isso, sempre que um escritor escreve, sempre que uma editora publica, o mundo fica um bocadinho mais perto do dia, mais longe da noite escura da caverna e da sombra.
Ler é resgatar-se às trevas. É viver in facto as vidas múltiplas que, fisicamente, jamais viveremos.
É encontrar Deus cara-a-cara e dizer-lhe: ’Gostei da Bíblia, do Alcorão e da Tora! Quando escreves o próximo?’.
Pedro Abrunhosa