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11 de outubro de 2020

O medo 

Tinha treze anos quando fui sozinho viajar pela Europa. Uma mochila, trezentos escudos no bolso ( talvez o equivalente a trezentos euros hoje), muita sede de mundo e bastante ‘lata’. Durante um mês atirei-me para universos que não conhecia  e situações que não dominava. Muito fora da minha zona de conforto, esta aventura acabaria por ser determinante para um maior entendimento de mim  próprio: um homem revela-se verdadeiramente perante o abismo, a tragédia, a contrariedade. Não quando está no conforto do expectável, na comodidade consoladora da rotina caseira. Afinal, é na forma como ultrapassamos o que não controlamos, como encaramos e lidamos com o que não conhecemos, que melhor nos definimos. 

Descobri nessa altura que não sendo nem melhor, nem pior do que as gentes que ia encontrando, eu era, afinal, igual aos ingleses,  aos dinamarqueses, aos japoneses, aos italianos e nenhum deles era melhor do que eu a ser eu próprio. Entendo agora que aos treze anos, tendo-me atirado para o desconhecido, estava a resolver precocemente o complexo de auto-menorização que, muitas vezes enquanto povo, nos faz endeusar o ‘estrangeiro’ e sucumbir perante ele. O mito, como o medo, desfaz-se quando o confrontamos. O mito, pelas razões históricas e difusas que carrega, revela-se frágil e a sua ‘desmitificação’ acontece no decorrer da nossa vivência no seu seio.  Em muitos casos, sobretudo na mitificação antecipada de situações que julgamos virem a ser penosas, descobrimos que as nossas crenças eram alicerçadas no que nos tinha sido transmitido pela tradição, pelo olhar de terceiros, não passando isso afinal de uma série de erros acumulados que pouco tem a ver com a nossa própria experiência e leitura pessoal  das mesmas circunstâncias. 

O medo, por outro lado, é um sentimento espoletado pelos estímulos da vida. Aprender a dominá-lo e, sobretudo, a entendê-lo, tem estado na origem duma das maiores demandas evolutivas da Humanidade. Perante o perigo, o Homem desenvolveu ao longo de milhares de anos mecanismos de alerta rápidos que, pela própria definição de intuição, o protegeram de situações adversas perante as quais o racional não teria tido espaço para se manifestar. Na savana de há 60.000 anos, por exemplo, escapar à boca de um leão resultava mais do intuito gerado pela envolvente (odores, sons, sensação de exposição) do que pela análise factícia dos vestígios ou dos relatos de outras tribos. Do somatório  de ambas estas circunstancias, intuição e razão, desenvolveríamos a inteligência emocional de que hoje nos orgulhamos enquanto espécie. 

Ter medo, perceber o medo, transformou a Humanidade  na espécie dominante que hoje é. Ao contrário dos outros animais, o Homem aprendeu a racionalizar o medo e circunscreveu-o a limites que não podem afectar o desenvolvimento da acção. É que, apesar de necessário, o medo pode paralisar a capacidade da reação, tornando-se num problema do quotidiano se extrapolar os limites e começar a atingir a qualidade de vida. A partir do momento em que o medo impede o indivíduo de fazer coisas comuns do dia-a-dia, estamos perante o medo patológico ou ‘fobia’. 

Ao ser o maior inibidor da acção, o medo, transfigura-se por antecipação em ansiedade e, pela fobia, em, pânico. Como todas as virtudes morais, ‘no centro está a virtude’. Nem destemeridade nem sentimento fóbico. Apenas ‘coragem’ perante o medo e este como sentimento que aguça o estado de vigilância diante do perigo e incita a agir para a resolução deste.

Vivemos na sociedade do medo. Temos medo de tudo: do sexo, do álcool, do tabaco, da carne de vaca, do açúcar, dos antibióticos, da nanotecnologia, da mundialização, do islão, do buraco do ozono, do aquecimento global, da internet, de andar de avião e agora até de sair de casa. Somos tiranizados pelo medo e, se observarmos a história da Europa dos últimos quarenta anos, não é simplesmente apenas essa proliferação de medos que vivemos, mas também a desculpabilzação do medo. O medo serve, em última análise, como desculpa para a inacção individual e, por consequência, colectiva. O homem é tendencialmente preguiçoso e egoísta e o medo a escusa ideal que usa perante si próprio para não agir. A fuga, a recusa em enfrentar os seus próprios receios, toma muitas vezes o lugar que deveria ser o da acção. 

Como exemplo: se pensarmos na fobia de pequenos ratos, de caranguejos, de algas no fundo do mar, sejamos claros: foram muito poucos os que até hoje morreram por ataque de caranguejos ou por uma rebelião de algas. Contudo não são raras as situações em que, perante uma aranha na casa de banho o indivíduo tudo faça para escapar a tão feroz animal. Na tentativa de fuga de uma situação que nos provoca pânico, é o medo que faz de cada um de nós o estúpido e o egoísta que trazemos dentro, felizmente a maior parte das vezes adormecido e silencioso, mas capaz de atropelar tudo e todos apenas para se salvar. Neste sentido, saber que o Aquecimento Global é um problema real, uma equação que ameaça o futuro de cada um com consequências já visíveis e não agir de forma consequente e concertada, revela uma geração que se recusa a enfrentar o medo e a passar de imediato à acção . 

Para a Filosofia, o medo é considerado como o maior inimigo da razão e o Sábio é aquele que o consegue vencer. O medo torna o homem pouco inteligentes e insensível perante os outros. Se, como diz Saint-Éxupery, crescer é perder o medo do escuro, enfrentar o mundo, ser mesmo capaz de ir em socorro de um desconhecido em dificuldades, então vencer alguns medos será ultrapassar-se da condição infantil, o que nos tornará não só em pessoas grandes mas em Grandes Pessoas. 

Permitam-me recordar aqui uma curta passagem da Bíblia, uma parábola descrita tanto por S.Marcos como por S. Lucas: a Parábola dos Talentos

Um homem ao sair de viagem chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. Ao primeiro deu cinco talentos a outro dois, e ao terceiro um. A cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida partiu de viagem. 
O que havia recebido cinco talentos saiu imediatamente, aplicou-os, e ganhou mais cinco. 
Também o que tinha dois talentos ganhou mais dois. 
Mas o que tinha recebido um talento cavou um buraco no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Depois de muito tempo o senhor voltou e acertou contas com eles. 
O que tinha recebido cinco talentos trouxe outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco talentos; veja, eu ganhei mais cinco’.
O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, eu te porei sobre o muito’.
Veio também o que tinha recebido dois talentos e disse: ‘O senhor me confiou dois talentos; veja, eu ganhei mais dois’.
O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, eu te porei sobre o muito.’
Por fim veio o que tinha recebido um talento e disse: ‘Eu sabia que o senhor é um homem severo, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou. Por isso, tive medo, saí e escondi o seu talento no chão. Veja, aqui está o que lhe pertence’.
“O senhor respondeu: ‘Servo mau e negligente! Sabias que eu colho onde não plantei e junto onde não semeei? Então devias ter confiado o meu dinheiro aos banqueiros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com juros.
‘Tirem o talento dele e entreguem-no ao que tem dez. Pois a quem tem, mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado. E lancem fora o servo inútil, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes’.

Pode a resolução do senhor ser dura por castigar o mais fraco dos servos, mas esta parábola não é só o enobrecimento do trabalho no seio de uma sociedade aristocrata que o considerava menor, mas também a condenação do medo e da preguiça como factores que paralisam o homem perante aa circunstâncias e o impedem de agir. O servo é castigado não por ter produzido pouco mas por nada ter feito com o pouco que lhe foi dado: por medo enterrou a moeda que lhe havia sido confiada, por medo paralisou, por medo se manteve pobre. Desta parábola emerge talvez a mais importante ilação da moral humanista cristã: ninguém vale pelo que tem mas pelo que faz com o que tem.

Neste duríssimo tempo que vivemos, abrangidos pelo mais democrático dos flagelos, uma pandemia, somos confrontados com um novo medo: não só o de nos infectarmos mas o de podermos contaminar os que amamos. É-nos pedido que nos afastemos socialmente uns dos outros, o que é meridianamente oposto à nossa essência humana de proximidade. Contudo sabemos que, como todos os desastres naturais (tempestades, terramotos, ciclones) também esta pandemia tem fim anunciado. A forma como cada um a vive contribuirá determinantemente para que mantenha a qualidade de vida possível.  Apesar de todas as agruras que ainda passaremos, vencer este desastre natural ainda está ao alcance da ação individual. Ao contrário de um terramoto ou de um furacão, ainda podemos contribuir para o destino do colectivo. O futuro é já hoje e baixar os braços não é uma opção. 

Sei dos muitos que me escutam hoje e que, com legítimo receio, se mantiveram no seu posto de trabalho em contacto constante com o público, assim mantendo o país a funcionar, a produzir, a manifestar-se vivo perante o medo. Conheço bem a questão, o receio do contágio, a presença de terceiros à nossa volta, dependentes de nós, conheço bem o desfecho do nosso trabalho e do nosso desempenho. À expectativa  que o público tem de nós, somamos a espera da nossa família que, em casa, nos aguarda e receia pela nossa saúde. É nestes raros momentos da História que podemos orgulhar-nos de termos contribuído para a solução, para que o colectivo venha a colher da dignidade da nossa ação. 

Ao contrário do servo na Parábola, não paralisámos nem abrimos um buraco no chão para esconder os nossos talentos. Como escreveu Shakespeare na peça ‘Henrique V’, quando nas vésperas da batalha de Azincourt no dia de S. Crispim, se dirige aos seus soldados francamente em minoria perante o exército adversário: 

‘Nós poucos, nós os poucos felizes, nós grupo de irmãos; 
Aquele que hoje derramar o seu sangue comigo 
Deve ser meu irmão, mas nunca tão vil, 
Este dia deve gentilizar a sua condição.
E os homens gentis da Inglaterra agora na cama 
Devem achar-se malditos por não estarem aqui
E segurar as suas virilidades baratas enquanto alguém fala 
Que lutou connosco no dia de São Crispim’

Afinal Montaigne tinha razão: ‘A única coisa da qual devemos ter medo é do próprio medo’

Pedro Abrunhosa
Porto, 11.10.20

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