Tinha 14 anos quando conheci Jorge Sampaio. Corria setembro do ano de 1975. Ele tinha acabado de fundar o MES e eu passava as férias de verão na casa de família em Moimenta da Beira. Antes do 25 de Abril de 1974 os meus Pais haviam-me habituado a conversas semi-encriptadas das quais sempre subentendera uma clara oposição ao regime. Para uma criança, inferir que havia um ‘lado certo’ e um ‘errado’, surgia mais da natural projecção dos valores parentais do que duma inexistente consciência política. A nossa casa na rua D. João IV, bem como a dos meus avós na rua do Heroísmo, mesmo ao lado da sinistra sede da sinistra PIDE, era um discreto centro de conspiração por onde corrupiavam algumas figuras que se haveriam de destacar, após a revolução também, na implementação do regime democrático. Carlos Cal Brandão, Óscar Lopes, Virgínia Moura, Ruy Luis Gomes, Miguel Veiga, Zuzarte Cortesão, António César de Oliveira e Beatriz Oliveira, para citar alguns, faziam parte dessa prole. Destes, os últimos, António e ‘Tita’ eram, talvez, os mais próximos dos meus Pais. Nesse Setembro de 75, ambos passavam uns dias connosco em Moimenta quando Jorge Sampaio e Maria José Rita, amigos comuns, chegaram. Vinham para uma sessão de esclarecimento na Escola Secundária, previamente preparada por meu Pai e António, e que se haveria de revelar pequena para acolher a multidão e a sede que trazia. Pouco retenho já dessa sessão para além da generosidade convicta com que se Jorge Sampaio se entregava, com igual empenho, às questões de fundo da generalidade política e às do foro estritamente pessoal dos moimentenses. No dia seguinte, antes da partida, no ‘Zé da Moca’, uma gatinha recém nascida veio deitar-se a seus pés. Ninguém convenceria os meus Pais a permitirem-me ficar com o bicho. Com a ternura e assertividade que lhe restara da noite anterior, Jorge Sampaio fê-lo. E porque a gatinha se aparentava com um peluche, logo ali ficou decidido o nome: ‘Peluche’ permaneceria comigo nos quatorze anos subsequentes.Duas décadas mais tarde, movido pelo mesmo profundo sentido de equidade social que lhe conhecera, Jorge Sampaio comunicou ao país a sua candidatura à Presidência da República, opondo-se não só a uma das mais medíocres personagens do então hemisfério político nacional como à nomenclatura do seu próprio partido. A violentíssima carga policial na vidreira Manuel Pereira Roldão, na Marinha Grande, à qual se seguiu uma outra, ainda mais feroz, a 31 de Agosto de 1994 na Ponte 25 de Abril, havia demonstrado que o regime do famigerado bloco central agonizava em fogo nada brando. Foi na recta final da sua campanha, em Dezembro de 1995, que nos juntámos. Havíamos decidido que só à ultima hora declararia publicamente o meu apoio fazendo valer a escassa credibilidade política que construíra junto das camadas mais jovens. Afinal, ao longo de um ano de espectáculos, tinha usado os palcos também como amplificador do protesto contra o mal-estar gerado pela gelatinosa máquina do poder vigente. O nosso encontro deu-se no Porto. Antes do anúncio, que mobilizara praticamente toda a imprensa e televisões nacionais, distribuímos os assuntos a abordar por cada um. Contudo, em pleno centro do furacão político que se fazia antever caso se verificasse a sua vitória, como veio a acontecer, naquela hora, a Jorge Sampaio interessava pouco a estratégia: - A Peluche?’, disparou. Vinte anos depois, este era o mesmo homem intrinsecamente alheio à menoridade e à intriga: Jorge Sampaio, meu, para sempre, Presidente.
Pedro Abrunhosa