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17 de janeiro de 2024

Arte e Espiritualidade - Serralves

Pensamento como pré-escrita

É no hemisfério da profunda interioridade do pensamento que primordialmente se impõe a realidade. Com ela historicidade, memória, reminiscência. O primeiro momento de percepção é ainda pré-elocutório: o objecto torna-se presente nas sensações mediante a impressão. O intuito colhe-o sem que a razão o julgue. É neste instante noético que os múltiplos conteúdos e modos sensoriais assomam a priori de forma apenas visível interiormente. Pela sua pré-existência, o objecto fala ao sujeito antes que o sujeito fale o objecto. E porque o pensamento tem na fala o seu maior instrumento, os sentidos incitam a linguagem a encontrar acesso à entidade que, ainda não falada, é apenas mistério. Pela fala entende o pensamento o que vê e diz o que entende. Mas quanto mais o fala, mais o espanto primevo, uterino, se fragmenta. Então o mistério esvanece tomado pela razão porque todo discurso é sempre limite. Poderá na Arte, mormente na Poesia, permanecer oculta a transcendência do ser falado, dado que na palavra poética a coisa é todas as coisas em si? E qual o lugar de Deus depois da banalização repetida do seu nome, depois da fala ladainha que, ao invés da Revelação, o verte?




Horror do Belo, belo do Horror

Em pleno coração da Europa de onde germinara a alta-cultura, as liberdades e o humanismo, há-de o Holocausto mostrar-se com os dentes de todo o mal.
Os mesmos que à força empurram para os já apinhados comboios da morte ainda mais vítimas, deleitam-se ao final do dia em serões com as ‘reveries’ de Debussy e chá. Entretanto, sabendo do fim que os espera e despojados de tudo que os faz homens e mulheres, aos ’untermensch’ resta apenas a memória como lugar possível da Humanidade que são. Recitam Schiller, entoam no silêncio interior cânticos em yiddish, deixam nos avessos dos catres paisagens gravadas a terra e a unhas. Não é estoicismo que os move mas viver o fim com a dignidade que nenhuma besta nazi consegue humilhar. Onde há violência e ódio há, mais do que a força dos tanques, a necessidade da supressão da identidade do outro. Memória e Arte são, por isso, os primeiros alvos do horror






A Espiritualidade Laica
De Ulisses ao Casamento por Amor


Dez anos durara a guerra em Tróia e dez anos mais há-de durar o regresso de Ulisses a casa, Ítaca. Um retorno que é, afinal, a busca de um homem pelo seu próprio lugar num universo semeado de desarmonia. Este trajecto que vai do caos à concórdia é, mais do que uma aventura, uma reflexão profunda que resgata cada homem à conformidade passiva do destino. Calypso, deusa, ninfa de múltiplos encantos e cujo nome significa ‘ocultar ou ‘encobrir’, apaixonada por Ulisses, oferece-lhe a imortalidade e juventude eterna em troca da sua permanência na ilha que habita. Ulisses negará sempre algo mais do que apenas a mortalidade que é, escolhendo viver ao lado de sua mulher e filho, Penélope e Telémaco, na perfeita consciência de que, um dia, o fim virá. ‘Conhece-te a ti mesmo’, inscrição no templo de Delfos, revela-se, em Ulisses, como o início de uma jornada que levará a humanidade a uma demanda dialogante sobre os ideais de felicidade enquanto vivência e não como esperança que só a morte revelará. Será este, desde o ínicio, o grande embate entre Filosofia e Religião. A fuga ao destino, enquanto lugar social consagrado e imutável, é definitivamente abraçada na sequência da primeira revolução industrial. Meios de produção, comunicações, novas fontes de energia farão milhões deslocar-se em busca de trabalho e melhor vida. Já não casarão pela pressão da aldeia, do pároco, da família mas por escolha própria. Penélope mora em Manchester, nas Américas, em Vizela. Onde houver pão, será Ítaca.Pedro Abrunhosa







Formas de (In)visibilidade

Arte é transcendência e imanência. Das suas formas exala a fruição apolínea, a contemplação, talvez o consolo do Belo. Para lá destas, fora dos limites físicos da sua materialidade, no processo noético anterior à substância e à palavra, lateja a incontenção dionisíaca, talvez o eco do medo primordial.
Dom humano por excelência este que vê por dentro das coisas o que elas não mostram por fora, razão e emoção dialogam num silêncio do qual há-de emergir ainda mais silêncio e, deste, um inconsciente individual, cidadela do tempo de cada um.
Assim procede também a Ciência quando longe da inibição dos métodos: a intuição do inimaginável onde os processos só veem o possível.

Dados, objetos, visões e instrumentos não chegam para chegar tão longe. É preciso mais. É preciso imaginação, ousadia e, sobretudo, rebelião. Ver não é o que se vê mas o que se pensa e não se vê.





O Erro Como Aprendizagem

Na Arte, como na Ciência, não existe um lado certo e um errado. Ambas são processos que decorrem tanto da história quanto do arrojo, do intuito, da vitalidade, do confronto com o desconhecido. Contra o saber científico de então, e apesar da ausência de instrumentos que o pudessem sustentar, Galileu percebeu que a física dos astros era igual à da Terra. Colocando em risco tanto a reputação quanto a vida, usou erros metodológicos, seus e alheios, para mudar mil e quinhentos anos de certezas geocêntricas. Hoje, a obsessão pelo sucesso, pela formatação do ensino vergado à ascensão social, castiga o erro como se este não nascesse da mão dos deuses que habitam a criatividade. O Homem erra porque tenta. E tentará sempre enquanto houver matéria que o provoque e espírito que se incendeie, pronto para a rebelião.

Pedro Abrunhosa



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