O caminhar do homem é vertical. Os membros posteriores libertos, pôde a
Humanidade emancipar-se da posição rasteja quadrúpede. Servem agora as
mãos para criar: um bisonte em Chauvet com 30.000 anos, uma flauta em tíbia de
milhafre datada de há 40.000 anos [Tübbigenn, Alemanha], uma girafa com 6.000
anos talhada em pedra [norte da Nigéria] são, ao lado das Partitas de Bach, da
Guernica de Picasso ou do ‘Sétimo Selo’ de Bergman, símbolo máximo dessa
verticalidade que, mais do que apenas física, é espiritual. Quando a compreensão
já não entende e o racional é omisso ou redundante, a Arte assume-se também
em diálogo com o mistério e o indizível.
Esta elevação, este resgate do Homem ao bestial que também é, e que Pico della
Mirandola tão bem caracteriza no Discurso sobre a dignidade do homem (1486),
talvez atinja o seu zénite através do processo artístico e criativo. Tal processo
traduz, mais do que uma intervenção no plano meramente estético, um
concretizar ético da voz interior, muitas vezes polifónica, do artista. Porque existe
uma solidão ontológica do momento criador, o artista é, muitas vezes, um misfitt,
um desajustado, alguém que, em diálogo com o silêncio, é hóspede da existência
de um ‘outro’ que habita o tempo do instante criativo. Esse ‘outro’ é muitas vezes
um Deus que emerge pela mão do poeta numa quase-imagem que, contudo,
nunca se torna imanente: para lá do Belo, a Arte, mormente a Música pela sua
ontologia da imatéria, procura dizer o que transcende sem o destruir.
Talvez Steiner o tenha sabido mais eloquentemente expressar: ‘A arte, sob a sua
forma mais original, mais completa para o nosso entendimento, tem um valor de
anunciação’. (1)
O artista evoca, em jeito de anunciação, aquilo que apenas ele vê. Essa antevisão
do que o artista/criador, pressente, traz inerente um mundo que virá como
promitente espaço de paz. A Arte é sempre uma utopia, um puro acto da criação
humana, metamorfose do pensamento e da disposição interior individual do
artista, em objecto de usufruto colectivo. Em linha com esta ideia, em discurso
dirigido em 2023 a um grupo de artistas presentes em visita ao Vaticano, o Papa
Francisco afirma: “Sois um pouco como os profetas. Sabeis ver as coisas em
profundidade e à distância, como sentinelas que estreitam os olhos para
perscrutar o horizonte e sondar a realidade para além das aparências”. (2)
Talvez não seja despiciendo a esta belíssima metáfora da Arte enquanto profecia,
associar o pensamento agostiniano, mais tarde recuperado por Bernardo de
Chartres, sobre uma construção do conhecimento assente ‘sobre os ombros de
gigantes’, nanos gigantum humeris insidentes.(3) Quase o mesmo dirá, a propósito
da Ciência, Sir Isaac Newton catorze séculos depois: “Se eu vi mais longe, foi por
estar de pé sobre ombros de gigantes”. Se no domínio da progressão intelectual e
científica estas afirmações validam um concretizar humano enraizado na
capacidade visionária de alguns, para as conquistas artísticas ver o mundo ‘aos
ombros de gigantes’ faz ainda mais sentido: Homero é um profeta que anuncia
Camões, Bosch anuncia Dalí e Bob Dylan anuncia os cantautores que se lhe
seguirão. Apesar da violência da ruptura que qualquer movimentação estética, ou
científica, inevitavelmente implica, o artista anuncia um mundo que evoca uma
ética de concórdia em permanente diálogo, simultaneamente, com o património
herdado e a invenção do futuro.
Seguindo a tradição pitagórica que identifica Amor com Harmonia, Boécio, filósofo
e autor das ‘Canções de Consolação’ (4), defendera no séc.V a procura da
sabedoria e do Amor como a verdadeira fonte da felicidade humana. Tal busca,
feita sob os auspícios de uma força à qual chama Harmonia, aqui entendida no
seu sentido musical, através da qual o Amor ganha estatuto de ‘força
organizadora que regula a máquina do mundo, as coisas e os homens’. (5) Já não
se trata apenas de identificar a música como entidade meramente sonora, mas de
estender essa compreensão ao carácter mais profundo da união plena do homem
com o divino através da Harmonia, dando corpo à doutrina de Platão, mil e
duzentos anos antes, que sustenta que todo o Universo está unido pela concórdia
musical. ‘O Amor de que nos fala [Boécio] é implicitamente de carácter musical’.
(6)
A música, de entre todas as formas de Arte, talvez permita, pela sua essência não
redutível à matéria, que cada um a represente no seu mais profundo inconsciente
de maneira absolutamente única, liberta das restrições e imposições involuntárias
sempre inerentes à plasticidade das formas. Assim, num espectáculo, num
concerto, num festival de música, entender-se-á melhor que ocorra a partilha
tácita, em simultâneo, de um espaço de dentro de si próprio onde cada um ouve à
sua maneira mas que celebra irmanado com a multidão que, a maior parte das
vezes, não conhece. É desta comunhão, quase litúrgica, que a música bebe a sua
força maior, enraizada que está num processo ontológico que é, a todos os níveis,
sinónimo de reconhecimento do ‘outro', de empatia e de ideal democrático por
excelência. A Arte nunca é tirânica, não se impõe nem dita normas, e a música,
talvez por não estar constrangida pelos limites plásticos da imagem, ressoa no
emocional de cada um com a liberdade que lhe é intrínseca dando lugar a
narrativas interiores individuais que se manifestam, quando em espectáculo, numa
estranha, mas maravilhosa, sintonia colectiva. Em A Origem da Tragédia (1872),
Nietzsche interpreta esta capacidade agregadora da música como uma
manifestação de uma ancestral ligação do homem ao cosmos prévia à linguagem,
e como a palavra, no seu sentido poético, se cumpre em esforço permanente para
ascender à condição de melodia.
Logo após a segunda vaga de COVID em 2022, quando se davam os primeiros
passos para o relaxamento das medidas de confinamento por todo o mundo, foi
surpreendente ver a explosão de espectáculos a acontecer, de teatros cheios, de
museus a baterem recordes de afluência de público, numa clara evidencia da
profunda necessidade humana em mergulhar colectivamente no misterioso abraço
da Arte e como manifestação clara do quanto esta faz parte das necessidades
vitais da Humanidade. Quando no discurso político global cresce uma retórica
populista de exclusão social, de racismo, de xenofobia, de ataque aos imigrantes,
às minorias étnicas e identitárias bem como às liberdades e direitos fundamentais
dos cidadãos, retórica essa alicerçada em distorcidas práticas neoliberais de lucro
e de individualismo, faz sentido reflectir sobre o papel apaziguador, agregador e
visionário que a Arte tem sabido manter ao longo da História. (7)
Na escrita de canções, a minha área de trabalho, desde cedo senti como a
abordagem dos temas correntes do dia-a-dia, o banal, o amor e a morte, a
saudade e a conquista, pode impactar a vida de milhares de pessoas que buscam
dignidade, conforto, compaixão ou, em alguns casos, algo que as resgate à
desesperança . Ao escrever sobre a minha própria dor, por exemplo sobre a
perda, descobri que falo sobre a dor comum, sobre a dor dos muitos que, no seu
solitário silêncio abafado pela emergente pressão da produtividade, possam ter
atravessado experiências semelhantes sem terem tido a oportunidade de as
expurgar O mesmo poderia dizer quando abordo temas de exaltação e luz.
Contudo, em concerto, e em ambos os casos, dor ou euforia, assisto a uma
sincronia entre o palco e o público que escapa à racionalidade, uma quase
epifania de libertação e pertença, um uníssono que faz o caminho do individual ao
colectivo para retornar, amplificado emocionalmente, a cada um dos envolvidos.
Tal é o poder da canção. Afinal todos choramos as mesmas lágrimas e é nesse
reduto emocional que a música pode ser salvífica.
Nestes casos, a música não se deixa configurar como produto nem cai no âmbito
do ‘espectáculo’, no sentido puro de entretenimento, mas é antes um vislumbre
para a paixão e o mágico que cada indivíduo traz e é. O ritual da audição,
enquanto usufruto pleno da canção, é uma valsa interior que necessita do ‘tempo’
para se deixar ouvir, uma contemplação imersiva que se constrói em contra-ciclo
com o consumo frenético do instante e da recompensa. Na música, a
recompensa, a haver, há-de surgir numa dimensão que é apenas espiritual, que
concilia o ser mistério da existência com a concretitude do mundo que também
somos. De resto, sem esta imersão num outro tempo interior, que é tanto
cronológico quanto espiritual, não é possível a projecção para o espaço reflexivo
que a experiência exige. A identificação do leitor com qualquer personagem de,
por exemplo, Moby Dick, a comoção que tal acto acarreta, só pode ocorrer pela
permanência do primeiro numa narrativa forçosamente lenta que o arrasta para
vivencias certamente difíceis na mundanidade. O mesmo perante qualquer quadro
de Rembrandt, os filmes de Béla Tarr ou uma peça de John Coltrane.
O tempo é o espaço ontológico comum a todas as formas de Arte e é na lentidão
desse mesmo tempo que toda a experiência artística, a criativa e a do espectador/
ouvinte, assume contornos de uma transcendência possível: o encontro de quem
experiencia, de quem usufrui, com a obra em causa é um encontro do ‘eu’ fora de
si mesmo. Sem tal dimensão, que tanto pode habitar o Belo quanto a
inconformidade ou mesmo o desconforto, não existe Arte enquanto génese de
criação mas apenas um simulacro, ou espelho, do imanente. Se, no primeiro caso,
como se vê nas grutas de Lascaux ou num grafitti de Banksy, há uma vitalidade
que traz à existência, no segundo há uma repetição que nega o arrebatamento
dessa mesma existência.
Ao impor-se como um novo gesto compulsivo do humano à escala global, o scroll,
pela rapidez com que impele à próxima visualização, tornou-se no maior inimigo
da narrativa porque lhe suprime a lentidão, a imersão num tempo de dentro, a
contemplação onde o diálogo com o mistério toma foro de visão. É o regresso ao
pior da caverna de Platão: com a opção da luz tão próxima, a sociedade opta
pelas sombras. Simultaneamente, a voracidade do consumo, a sempre insatisfeita
vontade do imediato, constitui-se no maior aliado da pós-verdade porque todo o
frenesim das sombras impede a verificação. A mentira e a manipulação, nos
antípodas do encantamento, entranham-se no discurso político, no publicitário,
num interminável processo de ‘comunicação’ que enche todo o vazio sem,
contudo, o conseguir preencher. E, ocupado o vazio por outro vazio, resta à Arte a
construção de sentido pelo espanto, pela imaginação e pela criatividade
recolhendo da vida, muitas vezes do sofrimento, os ingredientes necessários para
trazer o homem ao lugar da verticalidade transformadora. Não conheço outra
vontade de todo o processo artístico que não o da pacificação: a pacificação
daquele que cria e daquele que da criação usufrui. A dimensão na qual a Arte faz
submergir o indivíduo abre-o ao espiritual e à humildade do silencio perante o que
não consegue expressar.
No último século, o neoliberalismo tornou-nos numa espécie transacional
absolutamente dependente da posse e, pior, da vaidade da posse.(8) A Arte
devolve-nos ao fundamento transformacional que merecemos ser. Na realidade,
somos apenas dependentes uns dos outros e por isso o conforto que a Arte pode
oferecer é tenazmente transversal. A falsa ideia, tantas vezes propalada pelas
ideologias tecnocráticas, de que a Arte é uma desnecessidade, resulta da
obsessão pelo resultado, pelo dinheiro e pelo sucesso. Sendo que numa
sociedade inteiramente devotada ao dinheiro, ‘sucesso’ é sempre um caminho de
iniquidade que ignora diferenças sistémicas que cada um tem, por conjunturas
diversas mas, sobretudo, sociais e económicas, no acesso à cadeia de
oportunidades. A Arte não precisa do sucesso para se cumprir e abdica dessa
obsessão neoliberal pelo ‘resultadismo’. Na realidade não vejo de que forma os
artistas que pintaram os bisontes de Chauvet há 30.000 anos possam ter pensado
em sucesso como recompensa. Ainda assim, o seu maior sucesso é a nossa
maior recompensa: a libertação dos medos e a construção de um imaginário
mágico comum é o mais simbólico, e poderoso, laço de qualquer sociedade.
É esta verticalidade que a Arte representa. E é apoiada nela que a Humanidade se
pode servir para se resgatar à ‘banalidade do mal’.
A luz dessa verticalidade que somos talvez seja, também, a Luz de Deus.
Pedro Abrunhosa