Acredito que vivemos um momento histórico que poderá, na era pós-pandemia,
abrigar uma nova forma de olharmos para o contrato social.
A velocidade dos acontecimentos e o seu impacto directo no quotidiano,
associado à tomada de consciência colectiva das verdadeiras funções do
Estado, poderá levar a um reequilibrar de forças no plano das acções políticas
de forma global. A aproximação das eleições norte-americanas e francesas,
cujo resultado em muito depende da eficácia das medidas tomadas no combate
ao vírus, podem lançar pistas sobre o que aí vem: ou a pandemia populista ou
a solidariedade e a justiça.
A política não é um acto abstracto. A pandemia que enfrentamos hoje veio
demonstrar o quão eficiente é a nossa cidadania na construção do bem comum
e o quanto a ‘polis’ e a democracia dependem disso. Pela contagiabilidade
feroz do coronavírus, sofremos mais pelo impacto que receamos nos outros do
que em nós próprios. Se algo define a Humanidade, a separa da bestialidade
de outras espécies, é este receio pelos demais, pelos que nos são próximos
mas também pelos que não conhecemos: amamos à distância, mesmo quem
não vemos, amamos outras espécies, defendemos os mais fracos, protegemos
quem não pode cuidar de si. Mas o Amor traz uma sombra: o sofrimento.
Séneca, dramaturgo e filósofo romano, advogava que a virtude era suficiente
para a felicidade e que os ‘verdadeiros sábios eram imunes ao sofrimento’.
Esta corrente de pensamento, estoicismo, veio a encontrar eco nalgumas
religiões orientais de carácter monacal: ‘desprendido, sem família, só, retirado,
encontrarei a minha luz apesar do que aconteça no mundo’. Pessoalmente,
não creio que pudesse encontrar virtude, felicidade ou luz em pleno sofrimento
colectivo. E pela mais simples das razões: o colectivo não me é alheio.
Portanto, de estóico não tenho nada. Sendo nós o Estado, uma das nossas
funções enquanto tal é proteger aqueles a quem individualmente não
conseguimos chegar. Indivíduo e sociedade são parceiros nesta demanda. A
isto se chama ‘Política’.
A actual pandemia veio pôr a nu a esquecida fragilidade humana. Na sua
natural democraticidade, o coronavírus não distingue abastados ou
desprotegidos e galga continentes com o desprezo inerente à natureza. Como
para uma praga de insectos ou uma revoada de andorinhas as fronteiras são-
lhe indiferentes. A matéria na qual homens assentam os seus credos, deuses,
limites, territórios, muros ou ideologias são cuspidos pelo vírus com o mesmo
desdém com que estes se haviam cuspido e guerreado entre si. A
desimportância de ser Homem emerge: afinal morremos. Por momentos iguais
no medo e no destino, todos olhamos para a Ciência na ânsia de uma resposta
à altura. Entretanto não temos outra forma de sobreviver senão o regresso à
caverna e esperar que passe o tropel de mamutes. Fechados em casa olhamos
finalmente para dentro apenas para constatar como estávamos distantes de
nós próprios, dos nossos, do essencial. O Mistério e o Profundo são-nos
alheios. Se Deus existe ele não está nem nos bibelots nem nas redes sociais.
O consumo minou-nos a espiritualidade, levou-nos a imaginação e o tempo.
Sobretudo o tempo porque a espiritualidade é-nos imanente e transcendente,
sobretudo sem Deus. À distância, sentimo-nos turistas de uma vida que já não
reconhecemos e que não sabemos quando voltará. Para os que tocam
instrumentos, escrevem, leem, pintam, criam, há ainda uma salvação. Para os
outros a salvação é começar a fazê-lo de imediato, ganhar tempo ao tempo
que se perdeu. Rodeados de objectos que não poderemos comer, plásticos,
algodões, bugigangas, entre Fé e cientismo, cada qual escolhe de onde virá o
Bem salvífico e cada qual se acalentará na fogueira que acender.
No degredo forçado da caverna, as fakenews são a palha que há-de rastilhar
incêndios incontroláveis: a turba descerá à rua ávida de sangue e açambarcará
papel higiénico na ausência deste. Nunca, desde o final da segunda-guerra, a
mediação dos jornalistas foi tão necessária: verificar os factos, confrontar
testemunhos, estar no terreno. É a guerra. Séneca estava errado: sozinhos,
ainda que para proteger os que amamos, jamais seremos felizes.
Em sintonia com o vírus os discursos do medo cavalgam o apocalipse. Está
sempre no ‘outro’ a culpa da miséria a que chegámos e há sempre um
‘salvador’ agarrado a uma bandeira e a sentenças às quais ignorância e
desinformação aderem com fervor. A ‘apatia das massas’, como lhe chamou
Lipovetsky, há-de acordar para um ódio que não conhecia e para uma fúria que
lhe expurgue medos e males. Frascos de alcool de 0,40 cl vendidos a 150€ não
faltarão. Nem avalanches de mensagens para extorquir ‘fundos’ para uma
‘vacina’. De tudo é o homem capaz. Mas também do seu inverso.
Desta pandemia há-de ficar para sempre a firme imagem de um Serviço
Nacional de Saúde que nunca hesitou, que se entrincheirou na linha da frente e
que, apesar da exaustão, da sobre-lotação, do sub-equipamento só há-de
largar a luta quando a vencer. É sobretudo aos hospitais públicos que acorrem
os cidadãos em momentos de desamparo como este. Apesar de não terem
recepções coloridas, de as esperas serem longas e as condições longe das
desejáveis, sabem os cidadãos que em lado algum terão melhor apoio, mais
abnegado, mais humano e genuíno. Da peste sempre fugiram os seguros e os
privados mas quando vier a cura hão-de multiplicar-se em folhetos de papel
couché a dourar a pílula para a qual pouco contribuíram.
Há no liberalismo pré-pandémico uma tendência para justificar os actos
baseando-se meramente nos resultados financeiros deles decorrentes. Já a
prevenção e o combate continuado, quando não rentável, tornam-se
descartáveis e uma carga que cai exclusivamente sobre o serviço público. O
coronavírus torna claríssimo que o investimento na investigação, na literacia
científica e na formação especializada é uma prioridade e não um ‘desperdício
de recursos’ como demagogicamente tanto alardearam os liberais pré-
pandémicos. Talvez nada epitomize mais o espírito que levou as gentes à rua
a 25 de Abril de 1974 do que a efectiva edificação do Sistema Nacional de
Saúde porque, paralelamente à construção de uma rede de escolas públicas, o
SNS impôs-se no terreno, sem protelações, sem paliativos nem meias-
medidas. Porque é um bem do qual ninguém abdica, a saúde é das matérias
politicamente mais ideológicas e, simultaneamente, das mais rentáveis e das
mais onerosas. O permanente denegrir dos serviços públicos na mitologia
urbana, na conversa de café, na maledicência é, por isso, uma das mais
infames formas de convenientemente consagrar quem quer o seu fim.
Ao contrário do que afirmou Margaret Thatcher nos idos de 80, ’A sociedade
não existe’, defendendo o indivíduo como unidade autónoma e separada,
negando-lhe a ontologia gregária e social que é, justificando assim a parca
intervenção do Estado, descobrimos com este vírus que somos muito mais do
que os indivíduos isolados Thatcherianos e que estamos umbilicalmente
ligados à sociedade que, afinal, existe mesmo. Agora fisicamente isolados,
delegamos ao Estado as competências que muitas vezes lhe negámos: estar
magnanimamente presente no nosso quotidiano. Ao Estado pedimos que
elabore as normas de combate ao vírus, que as faça executar no terreno, que
treine médicos, enfermeiros, que faça o transporte de doentes, que lidere
planos de acção na linha da frente, nos hospitais, nos centros de saúde, onde
quer que o vírus possa ser debelado. A tudo isto dizemos que sim, mesmo que
tal possa por momentos desconcertar algumas das nossas mais básicas
liberdades e garantias. Tal é o poder da confiança que depositamos afinal no
Estado. Mesmo aqueles que ontem defendiam menos Estado são os primeiros
a implorar que este os assista agora. Afinal a sacrossanta ‘regulação’ é isto: ao
Estado a missão de suportar o peso total da crise. E é num Estado destes que
quero viver.
Pedro Abrunhosa