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EN Há matérias do foro humano que nunca estarão fora de moda. A guerra é uma delas. O amor, felizmente, é outra. 'Amor de perdição', obra maior de Camilo Castelo Branco, para além do intrínseco valor literário, continua a ecoar na actualidade: um triângulo amoroso, um amor contrariado, homicídio, suicídio e os dramas pessoais expostos ao escrutínio da moral vigente. Estes ingredientes, que bastavam para notícia de abertura de um qualquer tablóide dos dias de hoje, são, afinal, um retrato ficcionado da sociedade portuguesa nos meados do século XIX e ajudaram a transformar 'Amor de perdição' num dos mais notáveis e bem sucedidos romances da literatura lusa.
É impossível destrinçar esta obra da vida pessoal de Camilo: homem de paixões arrebatadas, por vezes violento, envolveu-se romântica e fisicamente com Ana Plácido, mulher que aos 19 anos casara com um comerciante abastado do Porto. Acusados de adultério, ambos são presos e é na cadeia que Camilo escreve, em apenas 15 dias, 'Amor de perdição'. Publicada em 1862, o romance atinge imediato sucesso e acaba por reflectir a vida atribulada do autor. Na obra, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, personagens principais, envolvem se numa relação proibida; Simão mata a tiro Baltasar Coutinho, primo e prometido de Teresa, pelo que é preso e condenado ao degredo. Pouparei os detalhes seguintes para que os descubra o leitor por mão própria.
O caminhar do homem é vertical. Os membros posteriores libertos, pôde a
Humanidade emancipar-se da posição rasteja quadrúpede. Servem agora as
mãos para criar: um bisonte em Chauvet com 30.000 anos, uma flauta em tíbia de
milhafre datada de há 40.000 anos [Tübbigenn, Alemanha], uma girafa com 6.000
anos talhada em pedra [norte da Nigéria] são, ao lado das Partitas de Bach, da
Guernica de Picasso ou do ‘Sétimo Selo’ de Bergman, símbolo máximo dessa
verticalidade que, mais do que apenas física, é espiritual. Quando a compreensão
já não entende e o racional é omisso ou redundante, a Arte assume-se também
em diálogo com o mistério e o indizível.
Esta elevação, este resgate do Homem ao bestial que também é, e que Pico della
Mirandola tão bem caracteriza no Discurso sobre a dignidade do homem (1486),
talvez atinja o seu zénite através do processo artístico e criativo. Tal processo
traduz, mais do que uma intervenção no plano meramente estético, um
concretizar ético da voz interior, muitas vezes polifónica, do artista. Porque existe
uma solidão ontológica do momento criador, o artista é, muitas vezes, um misfitt,
um desajustado, alguém que, em diálogo com o silêncio, é hóspede da existência
de um ‘outro’ que habita o tempo do instante criativo. Esse ‘outro’ é muitas vezes
um Deus que emerge pela mão do poeta numa quase-imagem que, contudo,
nunca se torna imanente: para lá do Belo, a Arte, mormente a Música pela sua
ontologia da imatéria, procura dizer o que transcende sem o destruir.
Talvez Steiner o tenha sabido mais eloquentemente expressar: ‘A arte, sob a sua
forma mais original, mais completa para o nosso entendimento, tem um valor de
anunciação’. (1)
O artista evoca, em jeito de anunciação, aquilo que apenas ele vê. Essa antevisão
do que o artista/criador, pressente, traz inerente um mundo que virá como
promitente espaço de paz. A Arte é sempre uma utopia, um puro acto da criação
humana, metamorfose do pensamento e da disposição interior individual do
artista, em objecto de usufruto colectivo. Em linha com esta ideia, em discurso
dirigido em 2023 a um grupo de artistas presentes em visita ao Vaticano, o Papa
Francisco afirma: “Sois um pouco como os profetas. Sabeis ver as coisas em
profundidade e à distância, como sentinelas que estreitam os olhos para
perscrutar o horizonte e sondar a realidade para além das aparências”. (2)
Talvez não seja despiciendo a esta belíssima metáfora da Arte enquanto profecia,
associar o pensamento agostiniano, mais tarde recuperado por Bernardo de
Chartres, sobre uma construção do conhecimento assente ‘sobre os ombros de
gigantes’, nanos gigantum humeris insidentes.(3) Quase o mesmo dirá, a propósito
da Ciência, Sir Isaac Newton catorze séculos depois: “Se eu vi mais longe, foi por
estar de pé sobre ombros de gigantes”. Se no domínio da progressão intelectual e
científica estas afirmações validam um concretizar humano enraizado na
capacidade visionária de alguns, para as conquistas artísticas ver o mundo ‘aos
ombros de gigantes’ faz ainda mais sentido: Homero é um profeta que anuncia
Camões, Bosch anuncia Dalí e Bob Dylan anuncia os cantautores que se lhe
seguirão. Apesar da violência da ruptura que qualquer movimentação estética, ou
científica, inevitavelmente implica, o artista anuncia um mundo que evoca uma
ética de concórdia em permanente diálogo, simultaneamente, com o património
herdado e a invenção do futuro.
Seguindo a tradição pitagórica que identifica Amor com Harmonia, Boécio, filósofo
e autor das ‘Canções de Consolação’ (4), defendera no séc.V a procura da
sabedoria e do Amor como a verdadeira fonte da felicidade humana. Tal busca,
feita sob os auspícios de uma força à qual chama Harmonia, aqui entendida no
seu sentido musical, através da qual o Amor ganha estatuto de ‘força
organizadora que regula a máquina do mundo, as coisas e os homens’. (5) Já não
se trata apenas de identificar a música como entidade meramente sonora, mas de
estender essa compreensão ao carácter mais profundo da união plena do homem
com o divino através da Harmonia, dando corpo à doutrina de Platão, mil e
duzentos anos antes, que sustenta que todo o Universo está unido pela concórdia
musical. ‘O Amor de que nos fala [Boécio] é implicitamente de carácter musical’.
(6)
A música, de entre todas as formas de Arte, talvez permita, pela sua essência não
redutível à matéria, que cada um a represente no seu mais profundo inconsciente
de maneira absolutamente única, liberta das restrições e imposições involuntárias
sempre inerentes à plasticidade das formas. Assim, num espectáculo, num
concerto, num festival de música, entender-se-á melhor que ocorra a partilha
tácita, em simultâneo, de um espaço de dentro de si próprio onde cada um ouve à
sua maneira mas que celebra irmanado com a multidão que, a maior parte das
vezes, não conhece. É desta comunhão, quase litúrgica, que a música bebe a sua
força maior, enraizada que está num processo ontológico que é, a todos os níveis,
sinónimo de reconhecimento do ‘outro', de empatia e de ideal democrático por
excelência. A Arte nunca é tirânica, não se impõe nem dita normas, e a música,
talvez por não estar constrangida pelos limites plásticos da imagem, ressoa no
emocional de cada um com a liberdade que lhe é intrínseca dando lugar a
narrativas interiores individuais que se manifestam, quando em espectáculo, numa
estranha, mas maravilhosa, sintonia colectiva. Em A Origem da Tragédia (1872),
Nietzsche interpreta esta capacidade agregadora da música como uma
manifestação de uma ancestral ligação do homem ao cosmos prévia à linguagem,
e como a palavra, no seu sentido poético, se cumpre em esforço permanente para
ascender à condição de melodia.
Logo após a segunda vaga de COVID em 2022, quando se davam os primeiros
passos para o relaxamento das medidas de confinamento por todo o mundo, foi
surpreendente ver a explosão de espectáculos a acontecer, de teatros cheios, de
museus a baterem recordes de afluência de público, numa clara evidencia da
profunda necessidade humana em mergulhar colectivamente no misterioso abraço
da Arte e como manifestação clara do quanto esta faz parte das necessidades
vitais da Humanidade. Quando no discurso político global cresce uma retórica
populista de exclusão social, de racismo, de xenofobia, de ataque aos imigrantes,
às minorias étnicas e identitárias bem como às liberdades e direitos fundamentais
dos cidadãos, retórica essa alicerçada em distorcidas práticas neoliberais de lucro
e de individualismo, faz sentido reflectir sobre o papel apaziguador, agregador e
visionário que a Arte tem sabido manter ao longo da História. (7)
Na escrita de canções, a minha área de trabalho, desde cedo senti como a
abordagem dos temas correntes do dia-a-dia, o banal, o amor e a morte, a
saudade e a conquista, pode impactar a vida de milhares de pessoas que buscam
dignidade, conforto, compaixão ou, em alguns casos, algo que as resgate à
desesperança . Ao escrever sobre a minha própria dor, por exemplo sobre a
perda, descobri que falo sobre a dor comum, sobre a dor dos muitos que, no seu
solitário silêncio abafado pela emergente pressão da produtividade, possam ter
atravessado experiências semelhantes sem terem tido a oportunidade de as
expurgar O mesmo poderia dizer quando abordo temas de exaltação e luz.
Contudo, em concerto, e em ambos os casos, dor ou euforia, assisto a uma
sincronia entre o palco e o público que escapa à racionalidade, uma quase
epifania de libertação e pertença, um uníssono que faz o caminho do individual ao
colectivo para retornar, amplificado emocionalmente, a cada um dos envolvidos.
Tal é o poder da canção. Afinal todos choramos as mesmas lágrimas e é nesse
reduto emocional que a música pode ser salvífica.
Nestes casos, a música não se deixa configurar como produto nem cai no âmbito
do ‘espectáculo’, no sentido puro de entretenimento, mas é antes um vislumbre
para a paixão e o mágico que cada indivíduo traz e é. O ritual da audição,
enquanto usufruto pleno da canção, é uma valsa interior que necessita do ‘tempo’
para se deixar ouvir, uma contemplação imersiva que se constrói em contra-ciclo
com o consumo frenético do instante e da recompensa. Na música, a
recompensa, a haver, há-de surgir numa dimensão que é apenas espiritual, que
concilia o ser mistério da existência com a concretitude do mundo que também
somos. De resto, sem esta imersão num outro tempo interior, que é tanto
cronológico quanto espiritual, não é possível a projecção para o espaço reflexivo
que a experiência exige. A identificação do leitor com qualquer personagem de,
por exemplo, Moby Dick, a comoção que tal acto acarreta, só pode ocorrer pela
permanência do primeiro numa narrativa forçosamente lenta que o arrasta para
vivencias certamente difíceis na mundanidade. O mesmo perante qualquer quadro
de Rembrandt, os filmes de Béla Tarr ou uma peça de John Coltrane.
O tempo é o espaço ontológico comum a todas as formas de Arte e é na lentidão
desse mesmo tempo que toda a experiência artística, a criativa e a do espectador/
ouvinte, assume contornos de uma transcendência possível: o encontro de quem
experiencia, de quem usufrui, com a obra em causa é um encontro do ‘eu’ fora de
si mesmo. Sem tal dimensão, que tanto pode habitar o Belo quanto a
inconformidade ou mesmo o desconforto, não existe Arte enquanto génese de
criação mas apenas um simulacro, ou espelho, do imanente. Se, no primeiro caso,
como se vê nas grutas de Lascaux ou num grafitti de Banksy, há uma vitalidade
que traz à existência, no segundo há uma repetição que nega o arrebatamento
dessa mesma existência.
Ao impor-se como um novo gesto compulsivo do humano à escala global, o scroll,
pela rapidez com que impele à próxima visualização, tornou-se no maior inimigo
da narrativa porque lhe suprime a lentidão, a imersão num tempo de dentro, a
contemplação onde o diálogo com o mistério toma foro de visão. É o regresso ao
pior da caverna de Platão: com a opção da luz tão próxima, a sociedade opta
pelas sombras. Simultaneamente, a voracidade do consumo, a sempre insatisfeita
vontade do imediato, constitui-se no maior aliado da pós-verdade porque todo o
frenesim das sombras impede a verificação. A mentira e a manipulação, nos
antípodas do encantamento, entranham-se no discurso político, no publicitário,
num interminável processo de ‘comunicação’ que enche todo o vazio sem,
contudo, o conseguir preencher. E, ocupado o vazio por outro vazio, resta à Arte a
construção de sentido pelo espanto, pela imaginação e pela criatividade
recolhendo da vida, muitas vezes do sofrimento, os ingredientes necessários para
trazer o homem ao lugar da verticalidade transformadora. Não conheço outra
vontade de todo o processo artístico que não o da pacificação: a pacificação
daquele que cria e daquele que da criação usufrui. A dimensão na qual a Arte faz
submergir o indivíduo abre-o ao espiritual e à humildade do silencio perante o que
não consegue expressar.
No último século, o neoliberalismo tornou-nos numa espécie transacional
absolutamente dependente da posse e, pior, da vaidade da posse.(8) A Arte
devolve-nos ao fundamento transformacional que merecemos ser. Na realidade,
somos apenas dependentes uns dos outros e por isso o conforto que a Arte pode
oferecer é tenazmente transversal. A falsa ideia, tantas vezes propalada pelas
ideologias tecnocráticas, de que a Arte é uma desnecessidade, resulta da
obsessão pelo resultado, pelo dinheiro e pelo sucesso. Sendo que numa
sociedade inteiramente devotada ao dinheiro, ‘sucesso’ é sempre um caminho de
iniquidade que ignora diferenças sistémicas que cada um tem, por conjunturas
diversas mas, sobretudo, sociais e económicas, no acesso à cadeia de
oportunidades. A Arte não precisa do sucesso para se cumprir e abdica dessa
obsessão neoliberal pelo ‘resultadismo’. Na realidade não vejo de que forma os
artistas que pintaram os bisontes de Chauvet há 30.000 anos possam ter pensado
em sucesso como recompensa. Ainda assim, o seu maior sucesso é a nossa
maior recompensa: a libertação dos medos e a construção de um imaginário
mágico comum é o mais simbólico, e poderoso, laço de qualquer sociedade.
É esta verticalidade que a Arte representa. E é apoiada nela que a Humanidade se
pode servir para se resgatar à ‘banalidade do mal’.
A luz dessa verticalidade que somos talvez seja, também, a Luz de Deus.
Pedro Abrunhosa
Pensamento como pré-escrita
É no hemisfério da profunda interioridade do pensamento que primordialmente se impõe a realidade. Com ela historicidade, memória, reminiscência. O primeiro momento de percepção é ainda pré-elocutório: o objecto torna-se presente nas sensações mediante a impressão. O intuito colhe-o sem que a razão o julgue. É neste instante noético que os múltiplos conteúdos e modos sensoriais assomam a priori de forma apenas visível interiormente. Pela sua pré-existência, o objecto fala ao sujeito antes que o sujeito fale o objecto. E porque o pensamento tem na fala o seu maior instrumento, os sentidos incitam a linguagem a encontrar acesso à entidade que, ainda não falada, é apenas mistério. Pela fala entende o pensamento o que vê e diz o que entende. Mas quanto mais o fala, mais o espanto primevo, uterino, se fragmenta. Então o mistério esvanece tomado pela razão porque todo discurso é sempre limite. Poderá na Arte, mormente na Poesia, permanecer oculta a transcendência do ser falado, dado que na palavra poética a coisa é todas as coisas em si? E qual o lugar de Deus depois da banalização repetida do seu nome, depois da fala ladainha que, ao invés da Revelação, o verte?
Horror do Belo, belo do Horror
Em pleno coração da Europa de onde germinara a alta-cultura, as liberdades e o humanismo, há-de o Holocausto mostrar-se com os dentes de todo o mal.
Os mesmos que à força empurram para os já apinhados comboios da morte ainda mais vítimas, deleitam-se ao final do dia em serões com as ‘reveries’ de Debussy e chá. Entretanto, sabendo do fim que os espera e despojados de tudo que os faz homens e mulheres, aos ’untermensch’ resta apenas a memória como lugar possível da Humanidade que são. Recitam Schiller, entoam no silêncio interior cânticos em yiddish, deixam nos avessos dos catres paisagens gravadas a terra e a unhas. Não é estoicismo que os move mas viver o fim com a dignidade que nenhuma besta nazi consegue humilhar. Onde há violência e ódio há, mais do que a força dos tanques, a necessidade da supressão da identidade do outro. Memória e Arte são, por isso, os primeiros alvos do horror
A Espiritualidade Laica
De Ulisses ao Casamento por Amor
Dez anos durara a guerra em Tróia e dez anos mais há-de durar o regresso de Ulisses a casa, Ítaca. Um retorno que é, afinal, a busca de um homem pelo seu próprio lugar num universo semeado de desarmonia. Este trajecto que vai do caos à concórdia é, mais do que uma aventura, uma reflexão profunda que resgata cada homem à conformidade passiva do destino. Calypso, deusa, ninfa de múltiplos encantos e cujo nome significa ‘ocultar ou ‘encobrir’, apaixonada por Ulisses, oferece-lhe a imortalidade e juventude eterna em troca da sua permanência na ilha que habita. Ulisses negará sempre algo mais do que apenas a mortalidade que é, escolhendo viver ao lado de sua mulher e filho, Penélope e Telémaco, na perfeita consciência de que, um dia, o fim virá. ‘Conhece-te a ti mesmo’, inscrição no templo de Delfos, revela-se, em Ulisses, como o início de uma jornada que levará a humanidade a uma demanda dialogante sobre os ideais de felicidade enquanto vivência e não como esperança que só a morte revelará. Será este, desde o ínicio, o grande embate entre Filosofia e Religião. A fuga ao destino, enquanto lugar social consagrado e imutável, é definitivamente abraçada na sequência da primeira revolução industrial. Meios de produção, comunicações, novas fontes de energia farão milhões deslocar-se em busca de trabalho e melhor vida. Já não casarão pela pressão da aldeia, do pároco, da família mas por escolha própria. Penélope mora em Manchester, nas Américas, em Vizela. Onde houver pão, será Ítaca.Pedro Abrunhosa
Formas de (In)visibilidade
Arte é transcendência e imanência. Das suas formas exala a fruição apolínea, a contemplação, talvez o consolo do Belo. Para lá destas, fora dos limites físicos da sua materialidade, no processo noético anterior à substância e à palavra, lateja a incontenção dionisíaca, talvez o eco do medo primordial.
Dom humano por excelência este que vê por dentro das coisas o que elas não mostram por fora, razão e emoção dialogam num silêncio do qual há-de emergir ainda mais silêncio e, deste, um inconsciente individual, cidadela do tempo de cada um.
Assim procede também a Ciência quando longe da inibição dos métodos: a intuição do inimaginável onde os processos só veem o possível.
Dados, objetos, visões e instrumentos não chegam para chegar tão longe. É preciso mais. É preciso imaginação, ousadia e, sobretudo, rebelião. Ver não é o que se vê mas o que se pensa e não se vê.
O Erro Como Aprendizagem
Na Arte, como na Ciência, não existe um lado certo e um errado. Ambas são processos que decorrem tanto da história quanto do arrojo, do intuito, da vitalidade, do confronto com o desconhecido. Contra o saber científico de então, e apesar da ausência de instrumentos que o pudessem sustentar, Galileu percebeu que a física dos astros era igual à da Terra. Colocando em risco tanto a reputação quanto a vida, usou erros metodológicos, seus e alheios, para mudar mil e quinhentos anos de certezas geocêntricas. Hoje, a obsessão pelo sucesso, pela formatação do ensino vergado à ascensão social, castiga o erro como se este não nascesse da mão dos deuses que habitam a criatividade. O Homem erra porque tenta. E tentará sempre enquanto houver matéria que o provoque e espírito que se incendeie, pronto para a rebelião.
Pedro Abrunhosa
A linguagem é mais complexa técnica jamais criada pela humanidade.
Quando escrita, serve para decretar o nascimento de países, a independência de nações, os Direitos do Homem, as leis de todos os povos de todo o mundo, as narrativas teológicas pelas quais milhões são capazes de se bater até à morte.
Nem o fogo, nem a roda, nem a fissão do átomo representam tanto histórica, cultural e socialmente como o acto universalmente necessário de representar objectos, emoções e factos por letras encadeadas em sílabas que hão-de formar palavras, frases, parágrafos, capítulos, livros que, por sua vez, nada mais são do que ideias Impressas.
Duas sílabas juntas podem selar o destino do mundo: a-mor, gue-rra, bei-jo, bom-ba, por exemplo. Este código fonético e semântico, universal e tacitamente aceite, demorou centenas de milhares de anos a ser construído.
Começou por ser um uivo numa gruta, um grunhido na selva, um sonoro percutir das mãos no peito para passar a ser Ciência, Religião, História, Canção, carta-de-amor ou bula de medicamento.
Por isso, sempre que um escritor escreve, sempre que uma editora publica, o mundo fica um bocadinho mais perto do dia, mais longe da noite escura da caverna e da sombra.
Ler é resgatar-se às trevas. É viver in facto as vidas múltiplas que, fisicamente, jamais viveremos.
É encontrar Deus cara-a-cara e dizer-lhe: ’Gostei da Bíblia, do Alcorão e da Tora! Quando escreves o próximo?’.
Pedro Abrunhosa
Uma Escola de Música pode ser muito mais do que apenas local de aprendizagem e aperfeiçoamento técnico. Pode, e deve ser, um fórum de construção comum, um espaço privilegiado para ouvir o outro, absorvendo-o no discurso próprio. É também um olhar avançado para o meio profissional que irá, a seu tempo, solicitar aos seus alunos rigor, humanidade e, sobretudo, capacidade de transcendência artística. Nada disto se ensina. Mas tudo isto se aprende.
É na interação com os pares ao longo do ano lectivo que os futuros músicos lidarão com as virtudes do espaço comum que a Escola permite enquanto ‘Ágora’, arena de debate e entrosamento entre todos. A Música é, por definição, a forma de arte na qual o acto solitário se converte em gregário, em colectivo, onde a interligação das partes, o todo, acrescenta mistério ao individual.
Por isso uma Escola de Música é, também, uma porta de entrada para o exercício da democracia: a atenção à voz mais ténue do fundo da sala, integrando-a no ‘tutti’ orquestral que é o ‘Grupo’, deve ser o propósito de qualquer espaço lectivo. Um escala musical não passa de um conjunto de notas sem, significado, como um alfabeto é um conjunto de símbolos que ordenamos para um discurso articulado composto por léxico e definido por semântica.
Sem a emoção que move o humano, uma escala nunca será nem melodia, nem poema, mas um sucedâneo de notas reproduzidas apenas pela técnica. A arte é mais do que isso. É a forma como transformamos o frio da formalidade em promessa de salvação e encantamento.
Entre muitas outras razões, esta é uma das que me fez associar à Academia de Guitarra do Porto. Quando terminei os meus estudos no Conservatório do Porto, comecei imediatamente a dar aulas, tendo ajudado a fundar Escolas de Música. Leccionei no Porto e em Lisboa e o meu principal objectivo sempre foi o de dar primazia à criação colectiva, ao ‘Grupo’ e ao ‘Combo’, dado que esse é, em ultima análise, o grande objectivo de qualquer Músico: participar numa Banda, subir a um palco, dar a conhecer ao mundo a sua visão. E essa visão constrói-se com a interioridade próprias à qual somamos a periferia do mundo que nos cerca.
Na Academia de Guitarra do Porto vamos poder experimentar percursos feitos de sons e de caminhos. Umas vezes esses caminhos serão estradas abertas, outras vezes apenas atalhos que vão dar a lugar nenhum. Em todo o caso, a experiência que ambos proporcionarão serão a mais eficaz das Escolas: na Música não há certezas nem verdades. Há dúvidas e mistério. Por isso, na composição, na execução em ‘Grupo’ out individual tudo nos será permitido porque os limites só existem para serem empurrados para fora de si.
Tinha 14 anos quando conheci Jorge Sampaio. Corria setembro do ano de 1975. Ele tinha acabado de fundar o MES e eu passava as férias de verão na casa de família em Moimenta da Beira. Antes do 25 de Abril de 1974 os meus Pais haviam-me habituado a conversas semi-encriptadas das quais sempre subentendera uma clara oposição ao regime. Para uma criança, inferir que havia um ‘lado certo’ e um ‘errado’, surgia mais da natural projecção dos valores parentais do que duma inexistente consciência política. A nossa casa na rua D. João IV, bem como a dos meus avós na rua do Heroísmo, mesmo ao lado da sinistra sede da sinistra PIDE, era um discreto centro de conspiração por onde corrupiavam algumas figuras que se haveriam de destacar, após a revolução também, na implementação do regime democrático. Carlos Cal Brandão, Óscar Lopes, Virgínia Moura, Ruy Luis Gomes, Miguel Veiga, Zuzarte Cortesão, António César de Oliveira e Beatriz Oliveira, para citar alguns, faziam parte dessa prole. Destes, os últimos, António e ‘Tita’ eram, talvez, os mais próximos dos meus Pais. Nesse Setembro de 75, ambos passavam uns dias connosco em Moimenta quando Jorge Sampaio e Maria José Rita, amigos comuns, chegaram. Vinham para uma sessão de esclarecimento na Escola Secundária, previamente preparada por meu Pai e António, e que se haveria de revelar pequena para acolher a multidão e a sede que trazia. Pouco retenho já dessa sessão para além da generosidade convicta com que se Jorge Sampaio se entregava, com igual empenho, às questões de fundo da generalidade política e às do foro estritamente pessoal dos moimentenses. No dia seguinte, antes da partida, no ‘Zé da Moca’, uma gatinha recém nascida veio deitar-se a seus pés. Ninguém convenceria os meus Pais a permitirem-me ficar com o bicho. Com a ternura e assertividade que lhe restara da noite anterior, Jorge Sampaio fê-lo. E porque a gatinha se aparentava com um peluche, logo ali ficou decidido o nome: ‘Peluche’ permaneceria comigo nos quatorze anos subsequentes.Duas décadas mais tarde, movido pelo mesmo profundo sentido de equidade social que lhe conhecera, Jorge Sampaio comunicou ao país a sua candidatura à Presidência da República, opondo-se não só a uma das mais medíocres personagens do então hemisfério político nacional como à nomenclatura do seu próprio partido. A violentíssima carga policial na vidreira Manuel Pereira Roldão, na Marinha Grande, à qual se seguiu uma outra, ainda mais feroz, a 31 de Agosto de 1994 na Ponte 25 de Abril, havia demonstrado que o regime do famigerado bloco central agonizava em fogo nada brando. Foi na recta final da sua campanha, em Dezembro de 1995, que nos juntámos. Havíamos decidido que só à ultima hora declararia publicamente o meu apoio fazendo valer a escassa credibilidade política que construíra junto das camadas mais jovens. Afinal, ao longo de um ano de espectáculos, tinha usado os palcos também como amplificador do protesto contra o mal-estar gerado pela gelatinosa máquina do poder vigente. O nosso encontro deu-se no Porto. Antes do anúncio, que mobilizara praticamente toda a imprensa e televisões nacionais, distribuímos os assuntos a abordar por cada um. Contudo, em pleno centro do furacão político que se fazia antever caso se verificasse a sua vitória, como veio a acontecer, naquela hora, a Jorge Sampaio interessava pouco a estratégia: - A Peluche?’, disparou. Vinte anos depois, este era o mesmo homem intrinsecamente alheio à menoridade e à intriga: Jorge Sampaio, meu, para sempre, Presidente.
Pedro Abrunhosa
Afirmou D. Tolentino de Mendonça, nas celebrações do 10 de Junho do corrente
ano, que ‘Camões desconfinou Portugal’. Se é verdade o papel do poeta na
abertura do país ao mundo, o mesmo fez Amália que, de uma assentada,
desconfinou Camões da estatuária do Estado Novo e o Fado da letalidade
endogâmica da tradição.
Contudo, há um arquitecto por detrás desta ousadia da fadista: Alain Oulman.
Nascido em 1928 perto de Lisboa no seio de uma familia da burguesia judaica,
Alain Oulman cresceu num ambiente dado aos negócios, à literatura e à música.
Aos vinte cinco anos, chamado a assumir a gestão das empresas familiares, tinha
já desenvolvido uma relação próxima com o meio musical lisboeta, do bas-fond
ao erudito, que não abandonaria nunca. Pianista, autor e compositor, passa dois
anos em Nova Iorque onde se funde no ambiente jazzístico da cidade. Aqui, à
excepção do cosmopolitismo e do ambiente de liberdade, reconhece as muitas
afinidades entre Fado e Jazz: músicas urbanas saídas de um ventre em agonia,
ambas emergem, vulcânicas, dengosas ou lancinantes, por entre o fumo dos
bares e das vozes de calaceiros. Contudo, e apesar de ter evoluído da
circularidade repetitiva dos três acordes do Blues, o Jazz havia já captado a
atenção das grandes escolas artísticas e conquistado um lugar ao lado da mais
complexa música erudita.
De resto, esta simplicidade na harmonia sequencial comum ao Blues e ao Fado
poderá ter espoletado a vontade em Oulman para experimentações que
extravasassem este último para longe dos canones tradicionais onde estacionara
sem contudo lhe vergar a genuinidade ou abastardar com tiques maneiristas.
Quarenta anos antes do conceito de ‘world-music’ que viria nos anos 90 a tornar
globais algumas expressões de música local e regional, Alain Oulman desenvolvia
conceitos estéticos e técnicos que romperiam com o estatuto do Fado enquanto
forma musical cristalizada em normas sacrossantas, muitas vezes apenas
implícitas.
O facto de ter crescido, não perto mas dentro do Fado, permitiu-lhe uma visão
interior e humilde mas ao mesmo tempo externa e destemida abrindo-lhe caminho
para utilizar elementos estranhos ao universo fadista de então, tanto naabordagem musical como na literária. Atento à pluralidade de questões que
levantaria ao iniciar um processo de composição numa área tão ‘policiada’ pela
tradição, Oulman, sem qualquer complexo, lançava a semente da polémica que
havia de ser também a génese do profundo abalo que havia de transformar os
axiomas fadísticos, encarados como intocáveis, numa forma mais permeável à
mundividência. Tal revolução iria entreabrir as portas de um desconfinamento vital
que ainda hoje se mantém.
Num ambiente tão avesso a mudanças e tão duplamente conservador, o do país e
o do Fado, só alicerçado na firmeza de um intérprete consagrado, ousado e
ambicioso, que aceitasse arriscar para lá do formato do castiço e da tradição,
poderia Alain Oulman colher das suas composições a dignidade que estas, de
facto, tinham.
Amália Rodrigues era isso tudo. Fadista reconhecida dentro e fora do país, Amália
estava provavelmente ciente de que para alcançar circuitos artísticos mais
desafiantes, mantendo o mercado global que já conquistara, precisava de
repertório que espelhasse a inventividade poética que agora reconhecia nos seus
pares fora de portas, de Piaf a Callas.
Foi em Paris, nos camarins do Olympia, provavelmente em 1959 (a fadista aí
actuou de 22 Janeiro a 16 Fevereiro) que Alain Oulman e Amália se terão
encontrado pela primeira vez. Ali, antes do espectáculo, aquele homem que
Amália não conhecia mas recebeu, interpretou ao piano a melodia do que viria a
ser ‘Vagamundo’, fado que seria editado em 1962 no primeiro disco de ambos,
‘Busto’. Nas palavras do próprio: ‘Toquei-a, apressado, ali mesmo, num piano que
estava nas bastidores e o certo é que a música lhe agradou e ela me sugeriu que
procurasse, em Paris, Luís de Macedo, para o poema…’ (1).
‘Busto’, com seis fados de Oulman, seria apenas o início de uma cumplicidade
criativa entre ambos que atingiria em ‘Com que voz’, gravado em 1969 mas
editado apenas em 1970, o seu zénite. Com doze composições originais de Alain
Oulman, o máximo que um LP à altura poderia comportar, ‘Com que voz’ sumariza
uma convergência ímpar entre intérprete e autor, ambos donos de uma profunda
maturidade humana e artística que se revelaria essencial para o embate que iriam
enfrentar. De facto, se já em ’Busto’ Amália havia cantado David Mourão-Ferreira e
Pedro Homem de Mello, é por influência de Oulman que empresta a voz a poetascontemporâneos como Cecília Meireles, Alexandre O’Neill, Ary dos Santos ou
Manuel Alegre. Contudo é com o soneto de Luís de Camões que dá nome ao
disco, ‘Com que voz’, que a polémica estala. Com honrosas excepções, como por
exemplo Augusto de Castro ou o catedrático da FLUL, Hernâni Cidade, crítica,
academia e meio fadista sucedem-se em condenações à ousadia da
interpretação. Tirar o maior poeta da língua lusa ao casulo dos ‘gramáticos’ era
um insulto em várias frentes: ao simbolismo petrificado com o qual o regime exibia
Camões, ao ambiente empoeirado dos contadores de sílabas na academia e nos
salões, aos puristas do Fado que viam entrar porta dentro uma construção métrica
e lexical que poria em causa a santíssima trindade tradicional — o fado corrido, o
mouraria e o menor— .
A esse propósito, mesmo vozes progressistas como a de José Cardoso Pires ou
do poeta José Gomes Ferreira, cuja obra magnífica, não comprometida com o
Estado Novo, faria adivinhar melhor atitude, juntaram-se ao libelo acusatório. Já
para Augusto de Castro, à altura director do Diário de Notícias, e para quem
Amália devolvera Camões ao seu povo, esta composição marca o regresso do
poeta ao seu lugar ontológico: ‘(…) porque foi povo, embarcadiço e poeta.
[Camões] Amou as noitadas, aquele jeito de desferir voos de asas no azul que a
guitarra da garganta de Amália espalha à sua volta quando canta’. (2)
Mas se há uma introdução da poesia contemporânea no Fado pela mão de
Oulman, bem como a composição sobre autores, até então, intocáveis, avalizados
por Amália, há, no plano musical, uma ruptura talvez ainda maior porque encerra
linguagem, para muitos, hermética. Com efeito, é no plano harmónico e estrutural
que Alain Oulman mais afronta os paladinos do purismo. Se até então o Fado
tradicional consistia em cantar letras diversas sobre harmonias comuns, quer no
Mouraria, no Corridinho e no Menor, as composições de Oulman introduzem
inicialmente variações sobre esta estrutura fixa acrescentando aos acordes
algumas extensões invulgares até aí, pelo menos de forma racional, tal como as
nonas, as sétimas, as quintas e quartas-aumentadas e todo um sem número de
sequências harmónicas que iam beber à tríade jazzística muita da sua surpresa.
Nesse aspecto, ‘Com que voz’ é um Fado absolutamente paradigmático para o
que virá depois. Acordes maiores que, subitamente, se transformam em menores,
extensões internas dentro do mesmo acorde e no mesmo compasso conferindo-lhes cor, drama e ambivalência tonal, cadências imprevisíveis que em tudo
contrariam a harmonia expectável do Fado tradicional maioritariamente baseada
na tónica, no quarto grau e, por vezes, no quinto. Tudo isto, somado ao belíssimo
soneto camoniano, torna 'Com que voz' no ‘Tristão e Isolda’ do Fado, ópera de
Wagner de 1865 em cuja abertura, com um acorde que ainda hoje suscita
discussão, se anuncia o dodecafonismo, o serialismo integral, o atonalismo e o
cromatismo, este último responsável por grande parte produção da música erudita
do séc. XX e XXI.
Numa perspectiva meramente estética, Alain Oulman acaba por representar para
Amália o papel que o Produtor Musical tem nas indústria discográfica a partir da
década de 60, ainda que não apareça creditado nos discos como tal. O Produtor
Musical é, ainda nos dias de hoje, alguém que se debruça sobre o processo
criativo e artístico bem como tudo o que envolve a gravação de um disco por
forma a potenciar apenas as qualidades estéticas deste. Se o resultado comercial
estiver em linha com a ambição artística, tanto melhor. O Produtor é, na música,
aquilo que podemos chamar de Director Artístico. Ele define caminhos, decide que
temas se gravam, que autores se interpretam e, sobretudo, que arranjos terá cada
canção e qual o lugar de cada uma no alinhamento final do disco. Importantíssimo
para a renovação do repertório do intérprete, com impacto directo sobre o olhar
que público e crítica lhe lançarão, o Produtor é, no estúdio, o gestor da carreira do
artista naquele preciso momento, Todas a suas decisões terão impacto no
julgamento a que, sobretudo intérpretes consagrados como Amália, estarão
sujeitos perante os seus seguidores e o mercado. Nesse aspecto, Alain Oulman é
muito mais do que ‘apenas’ o autor que escreve para Amália músicas que são,
elas mesmas, fracturantes, como se isso por si só não representasse já suficiente
responsabilidade. Ele é o homem que em 1969 vê em Amália muito mais do que
qualquer outra pessoa. Talvez nisso só acompanhado pela fé de Amália nele
mesmo, o que confere à fadista ainda maior valor. Raros são os intérpretes que se
abandonam assim às mãos dos seus autores e dos seus produtores. Amália está,
nesse capítulo, ao lado dos Beatles que se entregam a George Martin ou de Dylan
que, mais tarde, deixará Daniel Lanois aos comandos do seu magnifico disco ‘Oh
Mercy’, ponto de viragem incontornável da carreira do futuro Nobel da Literatura.As portas que Oulman e Amália abriram em ‘Com que voz’, ainda hoje deixam
entrar luz. Foi essa abertura, muito à frente para o seu tempo, que permitiu a
muitos dos actuais fadistas singrar nos mesmos mercados de Amália, cantando
hoje a novíssima poesia portuguesa e, apesar do respeito devido à tradição e à
escola por esta criada, interpretar fados com o arrojo aprendido em ‘Com que
voz’. Ana Moura, Mariza, Camané, Carminho, são, entre muitos outros,
descendentes directos deste disco, dos seus poetas, do seu autor e da sua
intérprete. Será esse talvez o maior legado de Alain Oulman e Amália Rodrigues.
Pedro Abrunhosa
(1)Alain Oulman (1928-1990), entrevista publicada: A Capital, Fevereiro 1971. Citada em : As mãos que trago : Alain Oulman 1928-1990, Portugal, EGEAC, 2009, ISBN 978-989-8167-05-7, p. 36
(2) Augusto de Castro in Editorial do Diário de Notícias, Lisboa, citado por António Valdemar, ‘A Voz de Camões’, Revista do Expresso, Ed. 2486, 20, Junho, 2020, p. 39
O impacto do Covid-19 na área do espectáculo é devastador. Sendo que a função primária de todos os que estão ligados a esta indústria é aglomerar multidões, encher recintos grandes e pequenos, festas, feiras, teatros, festivais, convenções, eventos de toda a ordem, adivinha-se uma tragédia surda a abater-se sobre dezenas de milhares de profissionais e suas famílias. Se não forem tomadas de imediato medidas que protejam aqueles que, nos bastidores, levam à cena a
nobreza da cultura, agregam o país, o encantam e iluminam, o impacto humano sobre esta miríade de trabalhadores invisíveis, muitas vezes a recibos verdes e sem qualquer tipo de retaguarda financeira, será tremendo. Há já muita angústia. Não tardará a fome e o desespero.
E a questão explica-se sumariamente: todas as actividades ligadas directamente ao espectáculo e cuja subsistência se alicerça em exclusivo, repito, na capacidade de aglutinar multidões, tiveram uma paragem de facturação de 100%. Mais: uma vez retomada a normalidade das actividades económicas que, espera-se seja em breve, a percepção colectiva do risco não levará de imediato o público a regressar a uma sala de teatro ou a um festival. O jugo psicológico manter-se-á muito para além de ultrapassada a primeira e segunda vaga do Covid-19. Nem a restauração ou a hotelaria, apesar do profundíssimo impacto que sofreram e com tanto em comum com estoutro sector, terá tal ordem de perdas. Para quem trabalha nas indústrias de palco, artístico ou de entretenimento, o cenário é o pior possível: todos os espectáculos sem excepção foram cancelados ou adiados e não há, compreensivamente, qualquer contratação a acontecer até ao início de 2021 sendo que, por esta altura, já o calendário do próximo ano deveria contar com bastante actividade. Desde que no início de Março estalou a pandemia, a facturação é nula e as marcações para os próximos dez meses, talvez mais, inexistentes.
Quando parto em digressão, e dependendo da dimensão do espectáculo em causa, a minha equipa pode ser composta, entre músicos e técnicos, por quinze a vinte e cinco membros. É exclusivamente em nome deles, pela abnegação incansável com que abraçam a profissão que tem, pela sua humildade e dedicação, porque representam outros tantos milhares neste momento em genuína agonia, pela incerteza lançada sobre as suas famílias, pela incógnita de como irão pagar as contas básicas à sua subsistência, que solicito ao Governo o olhar humano que lhe tenho reconhecido para sectores igualmente desprotegidos.
Já flagelados pelo fim das vendas de discos em formato físico, pela exploração de publicidade nas plataformas digitais cujas receitas para os autores são insignificantes, pelo uso abusivo e gratuito dos conteúdos que conjuntamente criam, músicos e técnicos veem-se agora a braços com a obrigatoriedade da inacção total, crise que se adivinha ainda mais trágica que a de 2008.
Não me lembro de ver a área da Música reclamar fosse o que fosse do Estado apesar de ser esta a primeira a marcar presença, individual ou colectiva, em milhares de eventos solidários: da simples compra de uma ambulância aos incêndios em Pedrogão, nunca faltou prontidão à classe. Ou por orgulho, ou para não sobrecarregar uma já hiper-solicitada máquina estatal, ou porque sempre foi
uma classe absolutamente autónoma, os músicos sabem que nesta sua auto-suficiência assenta a liberdade criativa que os conecta com os seus públicos. Nada dita mais a independência artística do que a distância para com o Poder. Mas esta é a hora de, em nome das equipas que lidero e que hoje aqui me outorgo representar, exigir que o Governo tome medidas eficazes e a longo prazo que acudam de forma inequívoca àqueles que enfrentam já seríssimas dificuldades.
As comitivas necessárias para levar à cena qualquer espectáculo são factores dinâmicos de criação de riqueza. Elas integram Músicos, Actores, Bailarinos, Técnicos de som, luz e vídeo, Roadies, Encenadores, Directores de palco, Maquinistas, Motoristas, Produtores, Promotores, entre dezenas de outros profissionais que hoje, e sem fim à vista, tem as suas vidas adiadas. Para os cofres do Estado contribuem directa e indirectamente com a vastidão das mais valias fiscais e laborais decorrentes da economia real que espoletam: empresas de de som e luz, de palcos, tendas, bancadas, bilhética, restauração, hotelaria, agências de viagens, de transportes, rent-a-car, de catering, de design, marketing, branding, imprensa, equipas de produção, comunicação, de contabilidade, agências de artistas, saneamento, vedação, construção, fornecedores de camarins,
geradores, instalações sanitárias encontram-se entre algumas das actividades que o sector do espectáculo estimula.
Em 2018 realizaram-se 311 festivais de música que mobilizaram 3 milhões de espectadores aos quais se podem somar milhares de eventos em praças, festas populares, terreiros, bailes e celebrações que, além de tudo, servem para que o país nunca mergulhe na penumbra amarga da tristeza. Os nossos clientes são este imenso público que vive no país mas também o que anda pelo país, os que correm atrás dos seus artistas e usam as ofertas locais, os que provam a sua gastronomia e se alojam em hotéis, casas de turismo de habitação, de turismo rural, os que usam
os parques de campismo e circulam pelas nossas estradas dinamizando pujantemente a economia regional e nacional. São dezenas de milhares os postos de trabalho que esta indústria gera. Mas não é possível contabilizar o valor do serviço prestado à comunidade, ao país, à sua imagem, à sua auto-estima.
Nada disto seria possível sem a imensa massa anónima para a qual venho hoje requerer atenção.
Não são autores que se possam agora fazer ressarcir dos seus direitos, nem micro-empresários que possam recorrer às linhas de crédito disponibilizadas, nem produtores de conteúdos quepossam agora disponibilizar e monetizar. São operários do sector, invisíveis e silenciosos mas fundamentais para que músicos como eu possam ter a visibilidade que fomos adquirindo. Sem eles, os nossos espectáculos seria uma negridão em cima de uma caixa de cartão. Eles fazem com
que eu seja ouvido. Está na hora de usar o que me construíram para que sejam eles também escutados.
Pedro Abrunhosa
Acredito que vivemos um momento histórico que poderá, na era pós-pandemia,
abrigar uma nova forma de olharmos para o contrato social.
A velocidade dos acontecimentos e o seu impacto directo no quotidiano,
associado à tomada de consciência colectiva das verdadeiras funções do
Estado, poderá levar a um reequilibrar de forças no plano das acções políticas
de forma global. A aproximação das eleições norte-americanas e francesas,
cujo resultado em muito depende da eficácia das medidas tomadas no combate
ao vírus, podem lançar pistas sobre o que aí vem: ou a pandemia populista ou
a solidariedade e a justiça.
A política não é um acto abstracto. A pandemia que enfrentamos hoje veio
demonstrar o quão eficiente é a nossa cidadania na construção do bem comum
e o quanto a ‘polis’ e a democracia dependem disso. Pela contagiabilidade
feroz do coronavírus, sofremos mais pelo impacto que receamos nos outros do
que em nós próprios. Se algo define a Humanidade, a separa da bestialidade
de outras espécies, é este receio pelos demais, pelos que nos são próximos
mas também pelos que não conhecemos: amamos à distância, mesmo quem
não vemos, amamos outras espécies, defendemos os mais fracos, protegemos
quem não pode cuidar de si. Mas o Amor traz uma sombra: o sofrimento.
Séneca, dramaturgo e filósofo romano, advogava que a virtude era suficiente
para a felicidade e que os ‘verdadeiros sábios eram imunes ao sofrimento’.
Esta corrente de pensamento, estoicismo, veio a encontrar eco nalgumas
religiões orientais de carácter monacal: ‘desprendido, sem família, só, retirado,
encontrarei a minha luz apesar do que aconteça no mundo’. Pessoalmente,
não creio que pudesse encontrar virtude, felicidade ou luz em pleno sofrimento
colectivo. E pela mais simples das razões: o colectivo não me é alheio.
Portanto, de estóico não tenho nada. Sendo nós o Estado, uma das nossas
funções enquanto tal é proteger aqueles a quem individualmente não
conseguimos chegar. Indivíduo e sociedade são parceiros nesta demanda. A
isto se chama ‘Política’.
A actual pandemia veio pôr a nu a esquecida fragilidade humana. Na sua
natural democraticidade, o coronavírus não distingue abastados ou
desprotegidos e galga continentes com o desprezo inerente à natureza. Como
para uma praga de insectos ou uma revoada de andorinhas as fronteiras são-
lhe indiferentes. A matéria na qual homens assentam os seus credos, deuses,
limites, territórios, muros ou ideologias são cuspidos pelo vírus com o mesmo
desdém com que estes se haviam cuspido e guerreado entre si. A
desimportância de ser Homem emerge: afinal morremos. Por momentos iguais
no medo e no destino, todos olhamos para a Ciência na ânsia de uma resposta
à altura. Entretanto não temos outra forma de sobreviver senão o regresso à
caverna e esperar que passe o tropel de mamutes. Fechados em casa olhamos
finalmente para dentro apenas para constatar como estávamos distantes de
nós próprios, dos nossos, do essencial. O Mistério e o Profundo são-nos
alheios. Se Deus existe ele não está nem nos bibelots nem nas redes sociais.
O consumo minou-nos a espiritualidade, levou-nos a imaginação e o tempo.
Sobretudo o tempo porque a espiritualidade é-nos imanente e transcendente,
sobretudo sem Deus. À distância, sentimo-nos turistas de uma vida que já não
reconhecemos e que não sabemos quando voltará. Para os que tocam
instrumentos, escrevem, leem, pintam, criam, há ainda uma salvação. Para os
outros a salvação é começar a fazê-lo de imediato, ganhar tempo ao tempo
que se perdeu. Rodeados de objectos que não poderemos comer, plásticos,
algodões, bugigangas, entre Fé e cientismo, cada qual escolhe de onde virá o
Bem salvífico e cada qual se acalentará na fogueira que acender.
No degredo forçado da caverna, as fakenews são a palha que há-de rastilhar
incêndios incontroláveis: a turba descerá à rua ávida de sangue e açambarcará
papel higiénico na ausência deste. Nunca, desde o final da segunda-guerra, a
mediação dos jornalistas foi tão necessária: verificar os factos, confrontar
testemunhos, estar no terreno. É a guerra. Séneca estava errado: sozinhos,
ainda que para proteger os que amamos, jamais seremos felizes.
Em sintonia com o vírus os discursos do medo cavalgam o apocalipse. Está
sempre no ‘outro’ a culpa da miséria a que chegámos e há sempre um
‘salvador’ agarrado a uma bandeira e a sentenças às quais ignorância e
desinformação aderem com fervor. A ‘apatia das massas’, como lhe chamou
Lipovetsky, há-de acordar para um ódio que não conhecia e para uma fúria que
lhe expurgue medos e males. Frascos de alcool de 0,40 cl vendidos a 150€ não
faltarão. Nem avalanches de mensagens para extorquir ‘fundos’ para uma
‘vacina’. De tudo é o homem capaz. Mas também do seu inverso.
Desta pandemia há-de ficar para sempre a firme imagem de um Serviço
Nacional de Saúde que nunca hesitou, que se entrincheirou na linha da frente e
que, apesar da exaustão, da sobre-lotação, do sub-equipamento só há-de
largar a luta quando a vencer. É sobretudo aos hospitais públicos que acorrem
os cidadãos em momentos de desamparo como este. Apesar de não terem
recepções coloridas, de as esperas serem longas e as condições longe das
desejáveis, sabem os cidadãos que em lado algum terão melhor apoio, mais
abnegado, mais humano e genuíno. Da peste sempre fugiram os seguros e os
privados mas quando vier a cura hão-de multiplicar-se em folhetos de papel
couché a dourar a pílula para a qual pouco contribuíram.
Há no liberalismo pré-pandémico uma tendência para justificar os actos
baseando-se meramente nos resultados financeiros deles decorrentes. Já a
prevenção e o combate continuado, quando não rentável, tornam-se
descartáveis e uma carga que cai exclusivamente sobre o serviço público. O
coronavírus torna claríssimo que o investimento na investigação, na literacia
científica e na formação especializada é uma prioridade e não um ‘desperdício
de recursos’ como demagogicamente tanto alardearam os liberais pré-
pandémicos. Talvez nada epitomize mais o espírito que levou as gentes à rua
a 25 de Abril de 1974 do que a efectiva edificação do Sistema Nacional de
Saúde porque, paralelamente à construção de uma rede de escolas públicas, o
SNS impôs-se no terreno, sem protelações, sem paliativos nem meias-
medidas. Porque é um bem do qual ninguém abdica, a saúde é das matérias
politicamente mais ideológicas e, simultaneamente, das mais rentáveis e das
mais onerosas. O permanente denegrir dos serviços públicos na mitologia
urbana, na conversa de café, na maledicência é, por isso, uma das mais
infames formas de convenientemente consagrar quem quer o seu fim.
Ao contrário do que afirmou Margaret Thatcher nos idos de 80, ’A sociedade
não existe’, defendendo o indivíduo como unidade autónoma e separada,
negando-lhe a ontologia gregária e social que é, justificando assim a parca
intervenção do Estado, descobrimos com este vírus que somos muito mais do
que os indivíduos isolados Thatcherianos e que estamos umbilicalmente
ligados à sociedade que, afinal, existe mesmo. Agora fisicamente isolados,
delegamos ao Estado as competências que muitas vezes lhe negámos: estar
magnanimamente presente no nosso quotidiano. Ao Estado pedimos que
elabore as normas de combate ao vírus, que as faça executar no terreno, que
treine médicos, enfermeiros, que faça o transporte de doentes, que lidere
planos de acção na linha da frente, nos hospitais, nos centros de saúde, onde
quer que o vírus possa ser debelado. A tudo isto dizemos que sim, mesmo que
tal possa por momentos desconcertar algumas das nossas mais básicas
liberdades e garantias. Tal é o poder da confiança que depositamos afinal no
Estado. Mesmo aqueles que ontem defendiam menos Estado são os primeiros
a implorar que este os assista agora. Afinal a sacrossanta ‘regulação’ é isto: ao
Estado a missão de suportar o peso total da crise. E é num Estado destes que
quero viver.
Pedro Abrunhosa
‘Se quiser, tiro-lhe esta mosquitada do vidro!’. O homem que proferira esta frase naquela tarde abrasadora de Setembro já havia enchido o depósito do meu carro e verificado a pressão dos pneus. Tudo com uma ligeireza que dificilmente se poderia atribuir a alguém na casa dos sessenta. A pele tisnada e um corpo vigoroso eram apenas desmentidos por um olhar fundo e meigo. Daqueles olhares de quem viu Mundos e voltou para contar. Disse-lhe que sim, que me fizesse o favor de dar uma limpadela no pára-brisas. Seria um pretexto para lhe dar algo mais quando pagasse sem que se sentisse humilhado. A nobreza da alma vê-se por fora, e os seus gestos eram pragmáticos e lestos de alguém habituado aos trabalhos duros que a vida vai impondo. Perguntei-lhe se era dali, daquele remoto lugar no Alentejo, sabendo eu que fosse qual fosse a resposta, o que é relevante num percurso não é o local de nascença mas onde se foi encostando o corpo ao longo do caminho. ‘Sim’, respondeu,’ mas fugi para Lisboa porque desde os 5 anos aqui verguei na lida desta terra que devolve pouco e exige tanto’. A tatuagem fundida no braço esquerdo, e que poderia ser uma serpente ou uma frase já ilegível, pareceu contrair-se. Sem ter ido sequer à escola porque a não havia, tinha escapado aos 12 aos rigores do chão alentejano e ao afecto paterno, se este tivesse existido. Deambulara pela capital onde conseguira trabalho numa adega ali para os lados de Santa Apolónia. Aí conheceu prostitutas, perdidos, bêbedos e viajantes sem destino e origem duvidosa. Tornou-se um deles quando se juntou a uma trupe de circo que parara para se refrescar em tinto da pipa. Fugira uma vez mais. Foi aprendiz, malabarista, acrobata, ajudante de cena, cavaleiro, mimo, mágico, porteiro, vendedor de pipocas e, finalmente, a profissão que lhe ficaria colada na pele melhor do qualquer uma das muitas tatuagens, Palhaço. Correra o país e até a Espanha tinha ido. E quando fazia de Palhaço rico usava o sotaque daquele país para sublinhar piadas às quais a miudagem retribuía num alarido que lhe alimentava o corpo e o sonho. Palhaço foi toda a vida, mesmo quando na Guiné evitava premir o gatilho da sua G-3 no receio de matar o inimigo oculto. Embora soldado, soldado nunca foi. E de lá fugiu, pouco antes do 25 de Abril, que o havia de indultar da pesada carga da deserção, para ir viver no Senegal. ‘Nenhum Palhaço pode odiar’, repetia para justificar mais esta fuga. E em Dakar fez uma vez mais de tudo para que a fraqueza o não levasse. Embarcadiço num pequeno veleiro, transportava café, cabras e contrabando entre as pequenas ilhas vizinhas. Numa delas teve finalmente a oportunidade de regressar a Portugal. O barco ‘Amor de Mãe’ andava na pesca do atum e voltaria a casa nesse mês. Embarcou e foi pescador, marinheiro e estivador. Na década de oitenta, já o país não era o mesmo, e nem as suas tiradas de Palhaço rico num espanhol de fronteira, surtiam efeito junto de plateias que agora preferiam a nudez das trapezistas. Agora limitava-se a levantar e a recolher a tenda, espetar ferros e esticar cordas dando-lhes nós que aprendera no mar. Voltou à arena, mas para limpar o recinto dos dejectos de cavalos magros e tigres adormecidos. Sem mais que fazer, decidira tornar a casa. Chegou à sua vila de noite e adormeceu à porta da que tinha sido a sua casa. O posto de gasolina estava em construção e foi com o barulho da azáfama que despertou. E aí arranjou trabalho.
Agora que acabou de limpar o último mosquito com minúcia de artesão, acabou também de me contar a sua história. ‘Aqui estou vai para 20 anos, saiba o senhor’. E antes que eu cometesse a imprudência de dar gorjeta a este Palhaço que só buscava dignidade, olhou em redor, abriu os braços queimados e exibiu uma vez mais tatuagens indistintas. Apontou a imensidão em volta e atirou: ‘ Já não há para onde fugir’.
Pedro Abrunhosa