Momento 2002

Momento é por definição o instante irrepetível. A música é pois, ainda que de forma estranhamente paradoxal, a arte de tornar perene o momento, estruturada que é no conceito de tempo e da repetição encantatória deste. Assim construí eu este disco. Uma maneira de tornar eternos os meus instantes, de os lançar como nuvens invisíveis sobre o céu carregado das melodias que me ensombram. Aqui habitam todos os fantasmas, as obsessões, as loucuras possíveis e todas as outras que não cheguei ainda a pronunciar. Das palavras faço canções que me fintam e se perdem por entre a harmonia seca de um piano qualquer. São as esquinas da cidade que me seduzem, mulheres vestidas de maquilhagem carregada, vultos escorregadios que tecem a noite como pássaros silenciosos, madrugadas encantadas entre as pegadas de um areal molhado pela chuva imprecisa. Os meus momentos são banais e por isso os canto. Esta vontade que tenho de tornar o real numa canção que repito até que outra canção me surja do sonho. Elas são o mundo a pulsar a cada piscar de olhos, o lento crescer de um lírio num deserto de cetim e cimento, as letras esbatidas de um jornal que ninguém lerá. Este é o meu Momento. Assim se cumprirão nas vossas mãos os meus instantes irrepetíveis.

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1. Momento Uma Espécie De Céu

01. MOMENTO UMA ESPÉCIE DE CÉU

Uma espécie de céu,
Um pedaço de mar,
Uma mão que doeu,
Um dia devagar.
Um Domingo perfeito,
Uma toalha no chão,
Um caminho cansado,
Um traço de avião.

Uma sombra sozinha,
Uma luz inquieta,
Um desvio na rua,
Uma voz de poeta.

Uma garrafa vazia,
Um cinzeiro apagado,
Um Hotel numa esquina,
Um sono acordado.
Um secreto adeus,
Um café a fechar,
Um aviso na porta,
Um bilhete no ar.

Uma praça aberta,
Uma rua perdida,
Uma noite encantada
Para o resto da vida.

Pedes-me o momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.

Uma estrada infinita,
Um anúncio discreto,
Uma curva fechada,
Um poema deserto.
Uma cidade distante,
Um vestido molhado,
Uma chuva divina,
Um desejo apertado.

Uma noite esquecida,
Uma praia qualquer,
Um suspiro escondido
Numa pele de mulher.

Um encontro em segredo,
Uma duna ancorada,
Dois corpos despidos,
Abraçados no nada.
Uma estrela cadente,
Um olhar que se afasta,
Um choro escondido
Quando um beijo não basta.

Um semáforo aberto,
Um adeus para sempre,
Uma ferida que dói,
Não por fora, por dentro.

Pedes-me o momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.

2. Sempre, O Espaço Vazio

02. SEMPRE, O ESPAÇO VAZIO

Deixei as palavras
Devorar-me os segredos,
Abracei a cidade
E prendi-a entre os dedos.
Cansei-me das ruas,
Das luzes de prata,
Escondi-me nas portas
Em vertigens de faca.
Abri as janelas
Sobre praças divinas,
E fechei-te nos braços
Sob a luz das cortinas.
Mergulhei no abismo
De um olhar tão urgente,
E beijei-te sem pressa
Pedindo-te o sempre.

A vida é só este espaço vazio,
Um instante demente
Entre as margens de um rio.
Pedaço de tempo,
mentiras eternas,
Uma névoa de gente
De esperanças pequenas.

Foi então que sonhei
Que não tinhas partido,
Que as mãos eram céu
E as noites comigo.
Acordei num abraço
Sereno de ti,
E foi preso no nada
Que no sonho morri.
Disseste que o quarto
Te fugia das mãos,
Eu perdi-me no medo
Que tivesses razão.
Mata-me a saudade
Agarra-me para sempre…
A vida é só este espaço vazio,
Um instante demente
Entre as margens de um rio.
Pedaço de tempo,
mentiras eternas,
Uma névoa de gente
De esperanças pequenas.

3. Uma Loucura De Anjo

03. UMA LOUCURA DE ANJO

E de repente
A porta abriu-se,
O mar entrou
Quando eu te disse: "Louco...".
E num instante
O mundo pára,
O sono agarra
Os teus passos de Anjo,
Como se fossem silêncio,
Os teus passos de Anjo.

E num momento
Invento histórias,
Conto mentiras
Já sem memória.
E só o sangue
Esconde as palavras
Que o sono empurra para
Os teus dedos de Anjo,
Como se fossem segredo,
Os teus dedos de Anjo.

Adormeces então devagar,
E nos teus braços
Há sempre lugar.
Deito-te comigo neste chão,
Sinto que respiram
Por entre as mãos
Os teus olhos de Anjo,
Como se fossem eternos,
Os teus olhos de Anjo,
Os teus olhos de Anjo.

A cada minuto
O tempo foge,
Quero dizer-te
Que não demores.
Rimos os dois,
Como quem ri da tristeza,
Em cada abraço
Uma loucura de Anjo,
Como se fosse sagrada,
Uma loucura de Anjo.

Por essa estrada
Não vejo o chão,
Vejo que a noite
Cresce na mão.
E se isso é céu,
E estrelas do mar,
Então sou teu
Nesse choro de Anjo,
Como se fosse secreto,
Esse teu choro de Anjo.

Adormeces então devagar,
E nos teus braços
Há sempre lugar.
Deito-te comigo neste chão,
Sinto que respiram
Por entre as mãos
Os teus olhos de Anjo,
Como se fossem eternos,
Os teus olhos de Anjo,
Os teus dedos de Anjo,
Como se fossem silêncio
Os teus passos de Anjo,
Como se fossem sagrados,
Nesse teu choro de Anjo,
Como se fosse secreto...

4. Diabo No Corpo

04. DIABO NO CORPO

Corpo,
Como um mapa sagrado,
Em ti desenho o pecado.
Escrevo o mundo no meu
Corpo,
Com um toque divino,
Faço da pele o destino.
Sente nas mãos este meu
Corpo,
Uma estátua ardente,
E a cada toque teu,

Até a passerelle devagar
Se vai abrir por ti,
E toda a música que ouvires
Irá ser por existires
Sempre que digo:

Uhuuu, tenho o Diabo no Corpo,
Uhuuu, tenho o Diabo no Corpo.

Leva o meu
Corpo,
Por um momento eterno,
Fazes-me a vida um inferno.
Escondo um louco no meu
Corpo,
Um infinito prazer,
Por isso: "Qu'est-ce qu'on va faire?".
Só tenho tempo para o meu
Corpo,
Como uma sombra inquieta,
E nessa voz discreta,

Até a passerelle devagar
Se vai abrir por ti,
E toda a música que ouvires
Irá ser por existires
Sempre que digo:

Uhuuu, tenho o Diabo no Corpo,
Uhuuu, tenho o Diabo no Corpo.

5. Deixas Em Mim Tanto De Ti

05. DEIXAS EM MIM TANTO DE TI

A noite não tem braços
Que te impeçam de partir,
Nas sombras do meu quarto
Há mil sonhos por cumprir.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,
Porque tu,

Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

A estrada ainda é longa,
Cem quilómetros de chão,
Quando a espera não tem fim,
Há distâncias sem perdão.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,
Porque tu,

Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

Navegas escondida,
Perdes nas mãos o meu corpo,
Beijas-me um sopro de vida,
Como um barco abraça o porto.

Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

6. Tu Não Sabes

06. TU NÃO SABES

Tu não sabes
Quanto tempo vais poder
Dizer: "Este sou eu",
Gritar que o chão é teu,
Tu não sabes,
Que o céu chama por ti,
Quando à noite te sorri,
Quando as pétalas se abrem
Só por si,
Tu não sabes.
Tu não sabes
Quanto tempo irás pedir
Quando o sangue te fugir,
Quando o punho se fechar
Sobre ti,
Tu não sabes,
Que o sonho não morreu
Quando o beijo se perdeu,
Que a manhã não acabou
Só por nós,
Tu não sabes.

Que palavras vais usar
Quando o sono não vier,
Quando a noite te disser:
"Vem comigo".
Que loucura irás dizer
Quando a mão que te apertar
Te pedir para ficares
Só mais um dia,
Tu não sabes,
Tu não sabes,
Tu não sabes.

Tu não sabes
Quantos rios se vão deter,
Quantos olhos vão beber
Nas palavras que colaste
Junto ao peito,
Tu não sabes,
Que os teus dedos são já meus,
Que se vão fechar nos teus,
Quando os barcos se despedem
Na maré,
Tu não sabes.

Que palavras vais usar
Quando o sono não vier,
Quando a noite te disser:
"Vem comigo".
Que loucura irás dizer
Quando a mão que te apertar
Te pedir para ficares
Só mais um dia,
Tu não sabes,
Tu não sabes,
Tu não sabes,
Tu não sabes….

7. Mais Uma Noite A Vencer

07. MAIS UMA NOITE A VENCER

Partiu na madrugada,
Sem se deixar fazer canção.
De mão aberta se fez à estrada,
Traçando sonhos pelo chão.
"Nesta cidade faz sempre frio"
Disse o taxista que a apanhou,
Sem reparar no olhar vazio
E no corpo que o habitou.

Da janela vê-se
Um lugar bem melhor.
Esta casa,
Esta esquina,
Ou seja onde fôr.
"Tenho que parar"- pensou,
E tentou não dormir.

Porque tudo o que queres
É alguém para amar.
Uma sombra,
Um chão devagar.
E tudo o que tens
É um nada a perder.
Um segredo,
Mais uma noite a vencer.


O silêncio louco da cidade
Apanhou-a desprevenida.
Entrou num bar em tons de roxo
E no azul de uma bebida.
Atravessou o rio
Uma última vez,
Pela ponte inexistente.
Foi encontrada junto ao cais,
Vestindo uma nudez diferente.

Agora já tens tempo
Para rir das estrelas,
Como gostavas
E fazias com elas.
E nos cinemas,
Era a tua voz no ecrã.
Uma bandeira,
Uma maneira
De beijares a manhã.

Porque tudo o que queres
É alguém para amar.
Uma sombra,
Um chão devagar.
E tudo o que tens
É um nada a perder.
Um segredo,
Mais uma noite a vencer.

8. Hoje É Tudo ou Nada

08. HOJE É TUDO OU NADA

Acordas longe de ninguém,
Sentes que ontem foste além,
Nas mãos um mundo que morreu,
Lá fora um outro que não é teu.
Na estrada o carro não parou,
Talvez alguém que não acreditou
Que o corpo serve para voar,
Sempre que a dor se deixe amar

E dizes que hoje vais mudar de vida,
Mas só mais uma para te mostrar onde é a saída,

Que é Tudo ou Nada,
Que hoje é Tudo ou Nada,
Que hoje é Tudo ou Nada,
Que hoje é Tudo ou Nada…

Os sonhos já são de papel,
As noites um sonho cruel,
Em cada porta alguém ausente,
Um som distante, um céu diferente.
O alcatrão a mil à hora,
Um instante que demora,
A luz corta como metal,
A terra tem um sabor banal.

E dizes que hoje vais mudar de vida,
Mas só mais uma para te mostrar onde é a saída,
Que é Tudo ou Nada,
Que hoje é Tudo ou Nada,
Que hoje é Tudo ou Nada,
Que hoje é Tudo ou Nada…

9. Um Mágico No Peito

09. UM MÁGICO NO PEITO

Um dia tudo acaba
Sem perceberes porquê,
Num acorde de guitarra
Vês o mundo
Mas ninguém te vê.
As sombras
Que falam,
Te ouvem
E dizem:
"Eu sou a noite".

Então sentes o frio
Duma qualquer cidade aberta,
Sabes que as ruas estão contigo,
Só o teu corpo está em parte incerta.
O vento
Que gritas,
Mais alto
Que o nome,
Que o medo de ti...

Desenhos,
Desejos,
Nos lábios,
No sangue
Duma parede qualquer.

E sobre a mesa um mar fechado,
Uma aguarela feita de luz,
Um passado nunca acabado,
E um beijo que alguém depôs.


Palavras,
Traídas,
Que fogem
E dizem:
"Não me deixes nunca".

Aqui o tempo não é tempo,
É só um chão que ninguém pisou,
Trazes um louco no pensamento
E um Verão que se eternizou..
Estradas
Que soltas
Dos olhos,
Dos mundos
Que trazes em ti...

Desenhos,
Desejos,
Nos lábios,
No sangue
Duma parede qualquer.

Há um mágico
Que não cabe nas tuas mãos,
Trá-lo no peito
Com a força do trovão.
E cada passo
É mais distante do que o que vês,
Talvez bastante,
Talvez discreto
Para mostrar quem tu és.

Mágico……

10. Outra Noite Perfeita

10. OUTRA NOITE PERFEITA

Escondo-me noutra pele
E passeio sem ninguém me ver,
Acelero ao sinal vermelho
E regresso para me perder.
Os olhos na estrada,
O corpo no vazio,
Nas mãos um volante de fogo,
E a cada néon um cigarro,
Um prazer demorado e longo.

Põe o teu corpo perto de mim,
Deixa que o chão nos engula a sombra,
Não pode haver engano num momento assim,
E de repente a tua voz na minha:

Noite perfeita,
Tu és perfeita.
Noite perfeita,
Tu és perfeita.
(Sempre te soube perfeita).

Aperto o deserto nos dedos
Como se fosses um corpo de areia,
Ao longe os comboios são loucos,
E louco é o meu olhar que vagueia.
Os braços no capôt,
As pernas contra o chão,
Não há desejo pior que a vontade,
E nos faróis escondes o medo
De quereres esta liberdade.

Põe o teu corpo perto de mim,
Deixa que o chão nos engula a sombra,
Não pode haver engano num momento assim,
E de repente a tua voz na minha:

Noite perfeita,
Tu és perfeita.
Noite perfeita,
Tu és perfeita.
(Sempre te soube perfeita).

11. Eu Não Sei Quem Te Perdeu

11. EU NÃO SEI QUEM TE PERDEU

Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais".

E dançou,
Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.

E partiu,
Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

12. Ecos De Uma Asa Que Voa
13. Sempre, Um Instante Demente

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