10. A PARTE DO MEIO

(Pedro Abrunhosa/Pedro Abrunhosa)

Gosto
Que me mordas o pescoço,
Que me dês onde eu não posso,
Do grito que já não ouço.
Gosto
Que desfiles em directo,
De te olhar e ver o tecto,
Dou-te língua e alfabeto.
Gosto
Que me peças que te toque,
Quando sou teu rei, teu roque,
Da miragem do decote.
Gosto
Quando me dás poesia,
Suor, Pessoa, filosofia,
Quando te vens onde eu já ia.

Não há melhor a dois,
Só o que vem depois,
Nada p'ra dizer,
Tudo volta a acontecer:

Só mexe a parte do meio,
Só mexe a parte do meio,
Só mexe a parte do meio.
O que é que mexe?

Gosto
De te ver andar de costas,
De dar-te como tu gostas,
Abusar do que não mostras.
Gosto
Do teu riso assim do nada,
Da tua dança parada,
Ao sabor da estocada.
Gosto,
Da tua pele quando me deixa,
Da minha que não se queixa,
Unhas de Mulher e Gueixa.
Gosto
De mostrar-te o fim do mundo,
Beber a taça até ao fundo,
Fazer princípio do segundo.

Não há melhor a dois,
Só o que vem depois,
E nada p'ra dizer,
Tudo volta a acontecer:

Só mexe a parte do meio,
Só mexe a parte do meio,
Só mexe a parte do meio,
O que é que mexe?
A parte do meio.